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Cooperativismo e Associativismo: uma questão cultural

Por Carlos Augusto Matos de Carvalho*

Segundo o Diagnóstico Estrutural Direcionado às Associações Rurais e Cooperativas do Estado de Roraima - 2005, desenvolvido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, juntamente com a Organização das Cooperativas do Brasil, através do convênio 218/2004/SARC/MAPA e OCB/RR, observa-se em relação às Associações Rurais em Roraima a existência de 129 ativas e 98 inativas e em relação às cooperativas a existência de 39 ativas e 65 inativas. A conclusão do estudo é a de que a relação entre associações rurais ativas (57%) e inativas (43%) é praticamente a mesma das cooperativas ativas (58%) e inativas (42%).

Portanto, “isto demonstra certa fragilidade nos laços societários, em que a cultura do associativismo e do cooperativismo ainda não é arraigada”. Esse mesmo Diagnóstico detectou que na visão de quase metade dos líderes entrevistados as necessidades prioritárias são as de acesso a financiamento, a cursos de capacitação (grifo nosso) e melhoria das estradas.

E complementa informando: 1. No tocante à necessidade de capacitação (81% das cooperativas querem capacitação para o quadro social); 2.  No tocante a planejamento (67% das cooperativas não planejam estrategicamente); e 3. No tocante à escolaridade das crianças (nas cooperativas 1.990 estudam e 169 não estudam).

O Diagnóstico Estrutural acena com proposições bastante exeqüíveis, quais sejam: 1. Percebe-se um contraste entre o analfabetismo e a formação superior entre os membros das cooperativas. Programas de capacitação direcionados aos associados devem levar em consideração especial este item; e 2. Deve ser enfatizada a elaboração de planos que visem a preparação de sócios futuros, como o Programa Cooperativismo nas Escolas, pois é preocupante o expressivo número de crianças sem estudar.

O Estado de Roraima, por sua localização fronteiriça, internacionalmente com a Venezuela e Guiana e nacionalmente com os estados do Pará e Amazonas, vem atraindo migrantes de todo o Brasil.

Eles vêm em busca de oportunidades de trabalho oferecidas por inúmeros concursos públicos promovidos, principalmente entre os anos de 2000 e 2007, como também pela malfadada perspectiva de ampliação dos fronts agrícolas, temporariamente reprimida pela homologação dos limites de terras indígenas em áreas contínuas e pela insegurança na titulação das terras.

Contudo, isso vem contribuindo para a elevação do índice populacional e fazendo emergir demandas sociais cujo poder público apresenta-se, de certa forma, desaparelhado para atendê-las a contento. Destarte, a oferta de cursos de associativismo e cooperativismo tem a perspectiva de criar um celeiro de conhecimento sobre o cooperativismo e o associativismo, particularmente de Roraima, propiciando uma expertise diferenciada local.

As cooperativas e associações do Estado poderão ser municiadas desses conhecimentos, potencializando suas ações na perspectiva de novos cenários. Também pode-se estimular a geração de novas lideranças cooperativistas e associativistas por intermédio de ações voltadas para os jovens estudantes, ainda no decorrer dos níveis fundamental, médio e universitário.

Oferecer oportunidade educacional de alto nível para a profissionalização de gestores que atuam nas organizações públicas, educacionais ou de empresas privadas que têm afinidades com o cooperativismo e associativismo, também contribui para formar lideranças, local e regional, e proporcionar uma visão ampla e integrada do cooperativismo e associativismo brasileiros, no contexto das transformações do país e do cenário mundial.

Promover essa reflexão com debates sobre a ética, democracia e responsabilidade das associações e cooperativas perante a sociedade, podem desenvolver a capacidade de comunicação, de trabalho em equipe e liderança que favoreçam tomadas de decisão organizacionais voltadas para o bem-estar das populações.

Estudos condicionados para as culturas associativistas e cooperativistas estimulam no ser humano habilidades necessárias para despertar talentos e potencialidades capazes de inovar, criar e intervir a partir de iniciativas próprias diante dos desafios proporcionados pelas transformações sócio-políticas e econômicas, respeitando os limites escassos da natureza, por exemplo e voltadas para a cidadania.

Proporcionar oportunidades de parcerias interinstitucionais com as unidades de ensino que possibilitem o desenvolvimento de ações em prol do interesse comum compreende exercitar a visão sistêmica das ações associativistas e cooperativistas.

Propor ações transformadoras no ensino e na gestão de associações e cooperativas de Roraima é propiciar a aquisição de conhecimentos e instrumentos de gestão que contribuam para a elevação dos padrões de eficiência, eficácia e efetividade da gestão de associações e de cooperativas, no atendimento às necessidades da sociedade. E é o que vem fazendo o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo, através da Unidade de Roraima, que firmou convênio com a Universidade Federal de Roraima -UFRR e Núcleo de Estudos em Administração e Negócios -NEAN, que promovendo a segunda turma de MBA em Gestão de Cooperativas, cujas aulas terão início em julho de 2014.

Por fim, deve-se incentivar o desenvolvimento de estudos científicos (artigos, monografias, dissertações e teses) sobre associativismo e cooperativismo, sobretudo de Roraima, e estimular as universidades para a oferta de disciplinas em gestão de associações e de cooperativas nos cursos de administração, contabilidade, serviço social, direito, secretariado executivo, agronomia e economia, principalmente.

*Administrador, Conselheiro Federal do CFA, Mestre em Economia, Professor da UFRR e UERR.