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CFA

APROVEITAMENTO DAS POTENCIALIDADES LOCAIS COMO PRESSUPOSTO PARA O DESENVOLVIMENTO

BREVES CONSIDERAÇÕES

Arranjo Produtivo Local; APL; desenvolvimento

Por Janaina Pereira da Silva

APROVEITAMENTO DAS POTENCIALIDADES LOCAIS COMO PRESSUPOSTO PARA O DESENVOLVIMENTO: BREVES CONSIDERAÇÕES

 Janaina Pereira da Silva

Registro CRA/PE: 12.378

Administradora pela Universidade de Pernambuco

Cursando MBA em Gerenciamento de Projetos na UNIDEVRY.

Consultora organizacional especializada em microempreendimentos, desde 2010.

Cooperada na Cooperativa Coperata desde 2014.

 

INTRODUÇÃO

            Muito se tem discutido acerca das alternativas diversas para alavancar o desenvolvimento do Brasil. É bem verdade que os direitos sociais, a partir de meados da década de 40, com o advento da garantia de um salário mínimo aos brasileiros, ainda que com ressalvas à época, as políticas sociais avançaram e possibilitaram inegável melhoria na qualidade de vida das pessoas. Isto aconteceu com mais vigor a partir do controle da hiperinflação que assolava o Brasil, evento possibilitado quando da implantação do Plano Real. A estabilidade econômica alavancou o crescimento do país, o que inclui aumento do Produto Interno Bruto, que é a soma de todas as riquezas produzidas no país em dado período, e melhoria de indicadores sociais, especialmente quando foi possível a convergência entre a política macroeconômica e a inserção social a partir de programas de distribuição de renda.

            Contudo, é importante diferenciar crescimento de desenvolvimento. A partir das políticas que alavancaram o fortalecimento econômico, percebe-se um crescimento inegável, especialmente em algumas áreas. Desenvolvimento é um conceito mais amplo. Além de possibilitar o crescimento econômico, trata-se de desenvolver e dominar tecnologias, produzir soluções e adequá-las às necessidades reais ou potenciais.

            Desenvolver o Brasil, país de dimensões continentais, pressupõe identificar potencialidades regionais ou locais e apostar nestas possibilidades visando aprimorar tecnologias e garantir conforto social a quem participa de tais atividades ou a quem, mesmo não participando diretamente, sobre elas interfere. Neste contexto, a abordagem de desenvolvimento a partir da perspectiva do fortalecimento de vocações regionais, formalizando, fomentando e apoiando financeiramente os arranjos produtivos locais, tende a ser a alternativa mais assertiva, uma vez que tal abordagem considera diferenças socioculturais e mesmo o conhecimento tácito como mola propulsora do desenvolvimento.

            Este artigo defenderá esta perspectiva.

  1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Diz Fuini apud Benko (2001) que

A noção de arranjo produtivo local (APL) adquiriu proeminência no debate científico e nas estratégias de políticas públicas no Brasil e no mundo enquanto instrumento de articulação dos atores locais a fim de elevarem a produtividade de um conjunto de empresas no uso dos recursos do território, promovendo competitividade e desenvolvimento territorial por meio de cooperação, complementaridade, inovação e trabalho qualificado.

            O conceito destes autores engloba quatro importantes características do que se conhece como arranjo produtivo local (ou APL), quais sejam: cooperação, complementaridade, inovação e trabalho qualificadoEsta posição corrobora com a definição de APL da RedeSist, que, aproveitando uma abordagem sistêmica, isto é, que permite trocas entre o micro e o macroambiente e reconhece que estas trocas interferirão dinamicamente na realização das atividades, define APL como conjuntos estruturados de atores econômicos, sociais e políticos, que podem estar situados em escalas produtivas organizadas ou não, mas que apresentam complementaridade e inovação necessariamente.

            Conforme Apolinário & Lussieu (2010), esta visão sistêmica inclui desde estruturas bem consolidadas até aquelas que se utilizam de conhecimentos endógenos, aproveitando a tecnologia externa às organizações, porém possibilitando interação entre atores de diferentes funções ou portes, oriundas dos três setores econômicos e, como já mencionado, organizadas de modo dinâmico, embora muitas vezes este dinamismo não esteja formalmente amparado. A colaboração ou cooperação entre os diversos atores possibilita ganhos como geração de renda e ocupação e promoção de crédito vetorizado, o que, ao mesmo tempo, é vantajoso e desafiador para as regiões onde existem APLs.

Acredita-se que a articulação entre atores e competências, a fim de mobilizar meios e instrumentos (crédito, comercialização, capacitação, tecnologia), gera dinamismo econômico e social para os arranjos. Este olhar e agir sistêmico, considerando as diversas dimensões (micro, meso, macro) e esferas (produtiva, financeira, institucional, política) revela-se como uma das principais vantagens do enfoque, e é, certamente, o seu maior desafio (APOLINÁRIO E LUSSIEU, 2010, p. 34).

            Fala-se em desafio porque, na maioria das regiões em que existem APLs no Brasil, estes nasceram espontaneamente das vocações e do aprendizado tácito locais, mas não receberam, ao longo do tempo, tratamento no sentido de disseminar a política colaborativa. Porém, a disseminação da prática cooperativa, embora não formalmente registrada, está fortemente presente nestes arranjos, arraigada ao conceito de governança, que, na experiência brasileira, quase sempre também não está formalmente estabelecida, mas existe e exerce influência determinante no modus operandi local. No Brasil, verifica-se a existência em geral de arranjos produtivos de bases horizontais, de surgimento espontâneo, embora existam casos de APLs estrategicamente estudados.

            Embora o conceito de APL não seja recente (apenas no Brasil, a RedeSist discute o tema desde 1990), Lages (2004) explica que “é grande a lacuna existente entre a constatação de sua importância para o desenvolvimento do país e as práticas efetivas de integração de políticas públicas”. Em verdade, esta tese bem poderia ser aplicada a todos os modelos de políticas públicas, quando, desde que se perceba a relevância da discussão de pontos básicos e reconheça-se sua relevância social até que sejam implementadas estrategicamente, os conceitos se ressignificam, causando a impressão de que a implementação de tais políticas sempre estará aquém de sua necessidade. A ausência de proatividade sacrifica a eficácia, portanto.

            Contudo, há outra perspectiva que envolve risco de percepção inadequada da relevância das políticas colaborativas: a errônea ideia de que, em regra, arranjos produtivos locais são constituídos apenas por micro e pequenas empresas, ou que existem unicamente enquanto vetor estratégico para priorizar o desenvolvimento destes portes organizacionais. Neste sentido, novamente ensinam Apolinário & Lussieu que

APLs não se referem exclusivamente a Micro e Pequenas Empresas (MPEs), não se referem exclusivamente a atividades e espaços deprimidos ou de baixa representatividade econômica, assim como não se referem exclusivamente a atividades desprovidas de tecnologia ou atividades de baixa expressividade comercial (2010, p. 35). 

            Pelo contrário, da cooperação entre os atores, nasce um sistema de negócios altamente característicos, e que carrega consigo, portanto, a marca da especialização. Esta é, por sinal, uma das características constantes do conceito de arranjos produtivos locais. A partir da adoção do tema pela RedeSist na década de 90, a própria discussão acerca de práticas colaborativas, complementaridade de atividades e sistemas dinâmicos de interação ganhou escopo no Brasil, favorecendo arranjos que já existiam, embora não se reconhecessem como tal. Desde então, instituições como o Sebrae vêm realizando pesquisas para conhecer e favorecer estes conjuntos produtivos, com vistas à promoção do desenvolvimento setorial regional. Em 2005, por exemplo, uma publicação do Sebrae atesta que a “aglomeração de empresas e o aproveitamento das sinergias geradas por suas interações fortalecem suas chances de sobrevivência e crescimento”.

            Mas a própria interação entre estes atores sociais decorre da construção estratégica de modelos de políticas públicas que favoreçam sua aplicabilidade e eficácia, como sustenta John (1995), ao elencar dentre as vertentes analíticas de tais políticas a abordagem que destaca o papel das ideias e do conhecimento. Fica configurada, portanto, outra característica definida no conceito de APL: a inovação. Conforme Matias-Pereira (2012), o desenvolvimento e a implementação de políticas públicas deve considerar, obrigatoriamente, o contexto social, político e econômico, uma vez que este contexto é que possibilitará a sinergia dos atores em prol dos objetivos formalizados ou tácitos da região que se pretende alavancar economicamente.

            Conforme Pereira,

as vantagens do enfoque em arranjos produtivos locais – e consequente conscientização dos diversos atores sociais quanto aos seus papeis na nova economia – vão desde a sobrevivência da empresa em mercados cada vez mais competitivos, - e que exigem maior especialização, - até a sua participação internacional. Tais tendências têm sido absorvidas pelas políticas de mercado, que hoje já enxergam o potencial de investir em aglomerações visando o desenvolvimento da economia a partir da análise das vocações regionais (2012, p. 16).

            É definitivo adotar, assim, além da visão sistêmica, um conjunto de práticas corporativas que favoreçam a inovação como pressuposto a solucionar de maneira personalizada as necessidades regionais. Ainda vale salientar o caráter de complementaridade, e não de competitividade, através do qual as atividades relacionadas ao segmento do arranjo produtivo local se relacionam. Dada a quantidade de modelos diversos que se pode estudar, especialmente em um país geograficamente continental, como o Brasil, a abordagem sob a ótica de APLs favorece a constituição de uma força maior – e típica – ressaltando-se a relevância de aproveitar as especificidades locais como pressuposto para o sucesso das aglomerações. Arranjos que ainda não se sabem como tal, inúmeras vezes, constituem economias relevantes, propulsoras do desenvolvimento e desencadeadoras de inovação e produção de conhecimento, porém não são alcançados por políticas públicas referentes pelo fato de serem ainda invisíveis. Trata-se da necessidade de fortalecimento da governança, característica inerente a APLs, porém mais facilmente observável em estruturas mais maduras.

            A governança provavelmente constitui o elemento mais decisivo – talvez não para a caracterização, mas para a sobrevivência – de um APL. É a partir da governança, no Brasil, mais perceptível de forma horizontal, que serão desenhados os moldes de relacionamento entre os atores sociais, incluindo a maneira através da qual receberão os inputs tecnológicos e gerarão produtos a partir dos mesmos. Para Santos apud Gonçalves (1997), a governança traça padrões de articulação entre os atores sociais os arranjos institucionais que coordenam. Também possui o papel fundamental de regulamentar as transações, acatando culturalmente os valores que consideram relevantes e descartando práticas ou modelos que vão de encontro ao desenvolvimento ensejado pelo APL. Estes padrões de coordenação, portanto, delimitam a interação entre os atores e, pode-se dizer, o nível de aprendizagem e a impressão de inovação como característica típica daquele arranjo. Trata-se de um processo contínuo e nunca estático, porém determinante para que se alcance a sustentabilidade preceituada pelas políticas públicas.  

CONCLUSÃO

            A legitimidade da discussão acerca de arranjos produtivos locais é tal que pode-se considerar inovadora no sentido de considerar a governança e o caráter de cooperação como propulsores de desenvolvimento regional. A consideração de vocações locais como determinantes do desenvolvimento socioeconômico oportuniza a continuidade do arranjo, na media em que não exige esforço atípico dos atores sociais envolvidos, mas simplesmente a sinergia entre os mesmos, visando produzir novas tecnologias, que serão, por sua vez, herdadas por aqueles que continuarão as atividades, produzindo e reproduzindo tecnologias, ressignificando conceitos, tipificando produtos e assegurando o dinamismo necessário à sobrevivência das empresas no mercado atual.

            Em arranjos produtivos locais mais maduros, é mais fácil perceber que esta sinergia entre os atores favorece o desenvolvimento da governança, que, por conseguinte, possibilita o enraizamento da tipicidade do produto local, possibilitando o intercâmbio entre a inovação e a cultura característica daquele arranjo.

            Evidentemente, não é tarefa simples converter competitividade em cooperação, pois, culturalmente e sociologicamente, a história brasileira preceituou a competição como fator determinante para a sobrevivência mercadológica. Some-se a isto um ambiente hostil às empresas, principalmente devido às crises econômicas e ao impacto da inflação e da ausência de políticas de geração de renda e oportunização do desenvolvimento entre as cinco regiões do Brasil. Porém, o fortalecimento da política de apoio e fomento a APLs é capaz de promover a sustentabilidade negocial, uma vez que reduz as dificuldades de adaptação às atividades que se fazem necessárias, já que o modus operandi daquela atividade está intrinsecamente ligado à sua cultura.

            Porém, verifica-se que o enfoque na abordagem de arranjos produtivos locais possibilita o aproveitamento das potencialidades de cada região, diminuindo riscos e ampliando oportunidades tantas vezes latentes em cada região brasileira.

            Outro ponto a observar é que os próprios arranjos produtivos se relacionam, se comunicam, mesmo porque o ambiente dinâmico pressupõe e favorece que isto ocorra. Este intercâmbio entre as diversas formas de fazer e as culturas arraigadas em cada microrregião, ou mesmo corporativamente inseridas nos APLs, oportuniza a geração de novas tecnologias, ainda que o processo tenha sido iniciado a partir do benchmarking, o que, de modo algum, é negativo. Estas práticas vão sendo repensadas, reproduzidas e ganham novos significados e relevância a partir do intercâmbio entre os atores sociais diversos. Ainda que indiretamente, os atores sociais de arranjos diferentes comunicam-se e exercem influência sobre arranjos onde podem ou não estar diretamente inseridos.

            Ademais, é importante observar que, embora seja possível perceber e mensurar avanços, a política de APLs depende ainda de um esforço para que se diminua a lacuna entre a importância que ela efetivamente possui e a sua efetiva implementação. Se não é fácil para os atores diretamente envolvidos em um APL específico perceber a relevância da cooperação e da sinergia, muito menos será se os instrumentos de apoio e os ganhos e vantagens latentes não forem apresentados com eficiência e proatividade.

            É preciso romper com o conceito de que APLs favorecem apenas os pequenos, ou direcionam esforços apenas para desenvolvimento de um aglomerado de atividade que, por decadência ou inexpressividade, mereceram atenção da gestão pública. Se, estrategicamente, estudar e fomentar um conglomerado de empresas e organizações de naturezas diversas já parece ser deveras interessante, muito mais o é quando se enxerga a viabilidade da continuidade das atividades ali desempenhadas a partir de um enfoque embasado e eficiente do ponto de vista da aplicabilidade e do reconhecimento do ganho de competitividade por todos. A sociedade organiza-se de diversas maneiras, espontaneamente ou não, e a organização - ainda que informal - em APLs garante maiores oportunidades de sucesso face um mundo dinâmico, que rompe com antigas estruturas e anseia pelo novo a cada segundo, a cada evento.

            A intenção deste artigo terá sido conseguida se foi possível causar ainda que minimamente uma reflexão sobre os caminhos do sucesso, sugerindo a organização cooperativa e o fortalecimento dos atores enquanto governança constituída e reconhecida, promovendo ganhos de inovação e fortalecendo estruturas sociais típicas, afinal, é por causa e para a comunidade que faz sentido trabalhar e desenvolver conceitos como o de arranjo produtivo local. 

REFERÊNCIAS

APOLINÁRIO, Valdênia; SILVA, Maria Lussieu da. Políticas para Arranjos Produtivos Locais. EDUFRN. Natal: 2010.

DA SILVA, Janaina P. Análise da Performance Industrial de Panificação em Bezerros – PE: potencial Arranjo Produtivo Local. Universidade de Pernambuco. Caruaru: 2012.

GONÇALVES, Alcindo. O conceito de governança. Disponível em: http://www.ligiatavares.com/gerencia/uploads/arquivos/24cccb375b45d32a6df8b183f8122058.pdf   Acesso em: 5 maio 2012.

JOHN, Peter. Analysing public policy. Londres. Pinter: 1999.

MATIAS-PEREIRA, J. Manual de Gestão Pública Contemporânea. 4 ed. Atlas. São Paulo: 2013.

SCOTT, A. J. A. Economia Metropolitana. In: BENKO, G. As regiões ganhadoras, distritos e redes: os novos paradigmas da geografia econômica. Oeiras. Celta: 1994.

Sebrae Goiás. Cooperar para crescer: Arranjos Produtivos Locais. Disponível em: http://sebraego.com.br/site/site.do?idSubCategoria=6   Acesso em 30 set 2010.

Revista RBA

 Pesquisa Perfil 2015

JANAINA PEREIRA DA SILVAJANAINA PEREIRA DA SILVA Janaina Pereira da Silva é administradora por formação e paixão. Formada pela Universidade de Pernambuco, atualmente, cursa MBA em Gerenciamento de Projetos. Atuou por 10 anos como microempresária e hoje presta consultoria organizacionais. Também é Professora Substituta na Universidade Federal de Pernambuco, lecionando nos cursos de Administração e Secretariado. Participa como consultora associada de uma cooperativa de serviços em Recife. Desenvolve estudos relacionados à Administração Geral, especialmente voltados às estratégias de gestão, arranjos produtivos locais e economia criativa.
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