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"Não tenho perfil"... com muito orgulho!

Por que os profissionais do estilo "chefe" são mal interpretados...

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por Janaina Pereira da Silva ” 12/09/2014 15h12
Diferenças entre líder e chefe

Por Janaina Pereira da Silva

     Recentemente, ocupei um cargo de agente político importante numa cidade de médio porte em Pernambuco. Fui convidada, segundo meu superior imediato, devido ao meu perfil técnico, analítico e à seriedade com a qual conduzo as situações, o que ele já havia observado em outros trabalhos. Menos de um ano após assumir o cargo, procurei o gestor e abdiquei da posição por um motivo simples, mas que me custava, naquela ocasião, assumir: eu não dispunha do perfil ideal para aquela posição.

     Sempre fui muito exigente comigo e com as pessoas com as quais me relaciono, e isso inclui o trabalho. Habituada a encarar os desafios da iniciativa privada em grandes e pequenas empresas - além da minha iniciativa pessoal -, o serviço público cada dia se me mostrava distante. Como cheguei a comparar, me sentia amarrada a um elástico tentando conduzir situações e pessoas com o nível de exigência que, além de me ser característico, era o ritmo a que eu estava habituada... e as coisas aconteciam, os projetos surgiam e até posso concluir minha experiência como proveitosa, mas a um custo superior às minhas forças.

     Por outro lado, admirava quem, mesmo em um ambiente que favorece a intriga e a ineficácia como é o caso do serviço público, conseguia manter uma atitude positiva e envolver as pessoas com a facilidade de que eu não dispunha, garantindo a convergência de todos os esforços em prol do objetivo coletivo - que, neste caso, é literalmente coletivo, dado tratar-se de gestão pública.

     Após momentos importantes e até dolorosos de ponderação, que me permito sempre que um grande objetivo traçado não foi, por alguma razão, conquistado, concluí que, mais do que o perfil de trabalho voltado à gestão pública, me faltava a postura de liderança, fator que impulsionava os projetos em outras pastas, mas me causava tanta admiração e trabalho duro.

     Mas o que havia de errado comigo?

     Confesso que, além da autoavaliação (quase uma autoflagelação!), os artigos, textos, livros inteiros que li, as conversas que tive com muitas pessoas, tão ou mais experientes que eu, que me conheciam e assim poderiam opinar assertivamente, ou que não me conheciam e que por isso também poderiam opinar assertivamente, vídeos e palestras que ouvi e assisti, nenhum me auxiliou no sentido de aplacar o sentimento de não ter cumprido o dever - ou o objetivo - simplesmente "porque não tinha perfil".

     Assim, me deparei com um sentimento pior do que perceber todas as circunstâncias me fazendo acreditar que "não tinha perfil": "não ter perfil" de líder, de grande aglutinador, mobilizador, gestor, amigo da equipe, "coach" é quase um pecado. Sim, pecado como o pecado original! Nós não entendemos por que pagamos por este pecado, mas praticamente todas as instituições afirmam que é devido e que temos que pagar.

     Mas por que "não ter perfil" de líder, de grande aglutinador, mobilizador, gestor, amigo da equipe, "coach" é tão ruim? Esta foi a motivação das minhas pesquisas seguintes. Por que tenho obrigatoriamente que dispor de uma postura de liderança quando isso simplesmente não faz parte do "meu" perfil? Por que "meu" (não) perfil fez as coisas darem errado naquele cargo, naquela situação, naquele dia, ou darem certo a um custo tremendo? É bom salientar que eu tentei "ter o perfil". Foi um grande esforço, até que tornou-se injustificável e violento contra mim mesma, motivo pelo qual desisti do desafio, mas não sem ter recebido deles lições preciosas.

     Somos seres singulares. Estamos a todo momento em busca de algum fator de realização, como tão brilhantemente foi demonstrado por Maslow. Quando não são as necessidades fisiológicas, são as de segurança, de status, de realização pessoal... Quando satisfaço uma das necessidades, quase que automaticamente, anseio por outros objetivos... Quando não satisfaço um nível de necessidade, não consigo passar para o próximo...

     Eu confesso: não é que eu não tivesse o tal perfil; eu apenas não sou líder. Demorei muito para entender que, sim, talvez não tenha conseguido atingir meus objetivos porque aquele cargo especificamente exigia um líder, e não um chefe. Porém, isso não significa que os "chefes não líderes" não possuam seu valor.

       Comecei a enxergar em mim as características ímpares que, a propósito, me diferenciavam dos líderes exatamente quando me faziam parecer um deles! Isso mesmo! Eu podia não ser líder, mas parecia uma! A diferença? Quando a corda apertava - e quem trabalha em iniciativa pública, privada ou própria sabe como e quando a corda aperta - o líder muitas vezes precisa incorporar o "chefe" tão pejorativamente descrito nos artigos, textos, livros inteiros que li, pelas pessoas que conversei que me conheciam tão bem que poderiam opinar assertivamente, ou que não me conheciam e que, por isso mesmo, poderiam opinar assertivamente. Mas eu, desobrigada de "ter o perfil", líder que não era, não precisava incorporar ninguém, não precisava fazer esforço algum para ser executora, e não comandante nem "coach" nem aquela pessoa que sai na frente da equipe. 

      Percebi que não foi apenas neste desafio que me saí assim. Em tantos outros, inclusive no desafio de ser microempresária no Brasil, mãe, filha, esposa, irmã, profissional, empregada, e tudo isso junto, eu me comportei do mesmo jeito. 

      Hoje, não me constrange mais assumir que não sou líder, mas uma exímia executora. Como executores, grandes vultos da Administração me sanaram tantas dúvidas, me provocaram cogitações, me fizeram perceber quão grande e diverso é o ser humano. 

     Atualmente, me inquieta outra dúvida, dentre as tantas divagações com as quais me deparo nesta tarefa incrível de nos conhecermos para conhecermos e podermos servirmos melhor ao outro: Maslow era "líder" ou "chefe"? 

     E assim caminha a minha humanidade... "Não tenho perfil", com muito orgulho!