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Os perigos da redução dos juros

Com a intenção de acelerar a atividade interna, essa medida macroeconômica pode resultar em inflação, endividamento e inadimplência

Por Gustavo de Carvalho Luiz

A redução dos juros é uma política do governo que tem por objetivo estimular o consumo e a produção por meio da facilitação do crédito, objetivando a aceleração da atividade econômica.

A redução da taxa SELIC é uma resposta da equipe econômica do governo frente ao baixo crescimento do PIB, com a intenção de dar energia para a economia.

Considerando que os juros altos inibem os investimentos produtivos, é importante que o Brasil busque um patamar de juros similar ao praticado internacionalmente. Porém essa política macroeconômica deve ser implantada com cautela, levando em conta os reflexos que pode acarretar no conjunto da economia, principalmente nas questões destacadas abaixo:

Inflação

Quando o governo reduz os juros, tem a intenção de injetar mais recursos na economia por meio do crédito, pois, com as condições de financiamento cada vez mais facilitadas, haverá um ensejo ao consumo pelas famílias. Isso vai resultar numa equação que trará aquecimento econômico e consequente expectativa de inflação.

Quando aumenta o número de pessoas aptas a consumir, ancoradas por políticas de facilitação do crédito e outras medidas de estímulo, ocorrerá a injeção de mais dinheiro em circulação, o que resulta na elevação dos preços.

Se uma economia for estimulada demais, o consumo poderá aumentar além da capacidade de produção do país, resultando na falta de produtos. É nesse momento que os produtores se aproveitam do aumento da procura para elevar os preços.

A principal causa da inflação é o desencontro entre oferta e demanda. Então, quanto mais se reduz o juro, mais se deve ter atenção para a pressão inflacionária gerada pelo aumento da demanda por parte do mercado consumidor.

Dessa forma, o Banco Central deve ser bastante cauteloso no manuseio da taxa de juros, pois o aumento da moeda em circulação pressionará os preços para cima. Quanto maior for a redução dos juros, maior será a expectativa de inflação na economia.

Endividamento

Diante da crise internacional, reduzir os juros para estimular o mercado é uma alternativa para driblar os efeitos das turbulências externas; porém essas políticas devem ser implantadas de forma responsável para evitar o endividamento.

Temos exemplos de países da faixa do euro, cujas populações foram extremamente especuladoras a ponto de se endividarem com a intenção de gerar riqueza, e por conta disso têm um futuro economicamente sombrio pela frente.

Foi justamente o consumo em exagero que levou a Europa a uma crise com alto grau de endividamento; pois, na década anterior, diversos países periféricos ingressaram na zona do Euro e passaram a observar custos de capital muito mais baixos do que estavam acostumados. Tal fato estimulou esses países a irem às compras e consumir além das suas capacidades de pagamento. Uma vez que custos de capital menores ensejam um processo de endividamento, agora essas populações estão pagando o preço da especulação.

Numa abordagem nacional, é possível dizer que o corte de juros visa estimular o investimento privado com a intenção de dar fôlego para a economia se movimentar; porém e o aumento do consumo, provocado pelo crescimento do mercado interno e pela redução dos juros, resultaram na elevação do índice de endividamento das famílias brasileiras.

O acesso facilitado ao crédito por meio de financiamentos provoca o comprometimento da renda dos consumidores que possuem menor capacidade de pagamento.

Com o esforço do governo em facilitar o crédito através de linhas mais baratas, a capacidade de endividamento aumentará. Por isso, é preciso estar atento ao comprometimento do salário com as prestações, o que é determinante para a inadimplência.

Inadimplência

Outra problemática advinda do aumento das medidas de estímulo ao consumo, como a redução de juros, é a elevação dos índices de inadimplência, pois a redução dos juros pode levar ao endividamento das famílias, com consequente elevação do número de inadimplentes.

Encerrando, além da redução dos juros, como política de estímulo ao mercado interno frente às crises, o governo também deveria se preocupar em direcionar recursos na expansão da capacidade produtiva por meio da elevação do percentual do PIB aplicado em investimentos, objetivando a geração de emprego e renda para a população.

A situação do Brasil comparada à conjuntura mundial demonstra uma certa solidez, porém o governo não tem aproveitado esse momento para investir em questões estruturantes, como as reformas fundamentais. O Brasil necessita de  uma ampla reforma tributária, que simplifique, desburocratize e dê competitividade, além de uma reforma administrativa, que reduza a burocracia e dê eficiência à máquina pública, bem como uma verdadeira e efetiva reforma previdenciária.

Muitas são as questões que devem estar permanentemente na pauta maior da equipe econômica do governo, que precisa cada vez mais estar atenta aos acontecimentos econômicos externos, principalmente diante da atmosfera de incertezas que paira sobre o mundo desenvolvido.