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História e Perspectiva dos Cursos de Administração no Brasil

 

          A Administração no Brasil, segundo registros históricos disponíveis, teve os seus primórdios em 23 de junho de 1931, quando foi fundado em São Paulo o "Instituto de Organização Racional do Trabalho", mais conhecido pela sigla 'IDORT', sob a Presidência do Dr. Armando Sales de Oliveira, assistido, tecnicamente pelo Prof. Roberto Wange, nascido em Genebra, na Suíça, e naturalizado brasileiro, que tinha sido contratado como professor da Escola de Engenharia da Universidade de São Paulo, e introduziu no Brasil os fundamentos da Reorganização e da Organização.


 


2.1. 0 Ensino de Administração nos Estados Unidos

          A educação superior em administração tem uma história de mais de 100 anc nos Estados Unidos, berço do ensino de Administração. Na Marquette University, curso de administração vem sendo ministrado há mais de 80 anos. Em 1988, 24% d todos os calouros escolheram a área de administração. Em 1993, formaram-se 250.00 mil Bacharéis em Administração.

          As escolas de administração e a formação em administração continuem send uma parte importante do cenário universitário dos Estados Unidos. A administração uma das mais novas áreas de conhecimento. Nasceu do reconhecimento da especificidades das relações, no mercado, a partir do contexto econômico. Hoje incorpor conhecimentos de várias outras áreas como antropologia, psicologia e sociologia.

          A tendência atual sugere a compatibilização de competitividade com cooperaçã em um mundo global.

          Com o passar do tempo, desde o inicio do século, pode-se perceber que os velho padrões que transmitiam um corpo comum de conhecimentos administrativos e muit' específico, transformou-se no núcleo do curriculo de quase todas escolas de administraç3~ dos Estados Unidos e aparentemente de todo o mundo. Complexas exigências en contabilidade, economia, marketing, produção, finanças, comportamento organizacional matemática e estratégia, entre outras áreas, foram consideradas básicas. Os velho padrões estavam inibindo as escolas de satisfazerem as necessidades específica' dos estudantes que estavam se formando.

          Dentro do contexto de mudança geral de padrões, os currículos foram alterados já que nem todos os estudantes de administração careciam necessariamente do mesmo currículo. Na verdade, o reconhecimento da necessidade de se preparar o profissional para um meio cada vez mais complexo é o ponto de partida dos padrões curriculares

- Vida Acadêmica Ativa: Vontade e capacidade de participar de atividades escolares e melhores práticas profissionais são consideradas importantes por 25 por cento das faculdades de administração;

- Motivasão para Atualização Continua: Sessenta por cento dos questionados acredita que os formados em administração deveriam ativamente procurar oportunidades para atualização continua dos conhecimentos;

- Competência Conceitual: As faculdades de administração consideram mais importante a compreensão dos fundamentos teóricos do que a competência técnica ou capacidade para resolver os problemas profissionais;

- Capacidade de Integração: A capacidade de integrar teoria e prática é considerada mais importante do que competência conceitual ou técnica.

          Matérias tais como liderança, administração de crise, capacidade de negociação, comunicação e "meeting management" são ignoradas em grande parte. Entretanto, dos estes assuntos são importantes para o sucesso na administração. Não ministrá-los equivale, provavelmente, a não ensinar argumentação e procedimentos em tribunal um advogado.

O Comitê, dessa forma, sugeriu uma abordagem-matriz, a saber:


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DISCIPLINAS TRADICIONAIS TÓPICOS EMERGENTES

  • CONTABILIDADE
  • ECONOMIA
  • FINANÇAS RECURSOS HUMANOS
  • MARKETING
  • SISTEMAS DE INFORMACÃO
  • PESQUISA OPERACIONAL
  • COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAL, etc ÉTICA ADMINISTRATIVA
  • GLOBALIZAÇÃO
  • MEIO AMBIENTE
  • ADMINISTRACÃO DA TECNOLOGIA
  • CONTROLE DA QUALIDADE TOTAL
  • EMPRESARIADO, etc

          Por exemplo, quando o estudante estuda marketing deve sempre pensar em marketing dentro do contexto global, consciente das questões éticas, passando a entender como a função comercial utiliza a informação e a tecnologia de informação. Se um estudante pensa em desenho industrial, este deve pensar automaticamente nos países culturas onde o produto será comercializado (global) e se será um produto seguro para o meio ambiente (ética). Quando se consideram os canais de informação e os níveis adequados de levantamento, espera-se que o estudante esteja considerando o impacto do fluxo de informação. Naturalmente, todos estes tipos de preocupações começam a formar um tipo de cultura dirigida para a qualidade em função do mercado.


 


2.2 0 ensino de Administração na Europa

          A preparação para as funções dirigentes que se fazia antes da 11 Guerra Mundial caracterizava-se pela concentração dos estudos em torno de uma disciplina, em geral de contabilidade e/ou por uma grande acumulação de conhecimentos técnicos. Era o que predominava nas faculdades de Ciências Econômicas Aplicadas da Alemanha, nas "Écoles de Comercie" franceses e nos "Technical Colleges" da Grã-Bretanha (Keinert, 1 986).

          A despeito do reconhecimento da utilidade desse tipo de estudo, pouco a pouco foi ficando evidente que, como preparação para as responsabilidades de direção, não eram melhores do que o estudo de direito ou de filosofia e letras ou de engenharia. Começava-se a perceber, então, que a competência do dirigente devia-se mais à formação do espirito do que ao domínio de técnicas.

          De outro lado, havia forte resistência por parte dos dirigentes, tanto do setor público quanto do setor privado, a participar de cursos de aperfeiçoamento e, mesmo, a acreditar que a Universidade ou os institutos isolados pudessem vir a contribuir eficazmente para a formação de quadros para os escalões de decisão das empresas. Essa situação começou a modificar-se a partir de 1946, quando uma sociedade multinacional instalou em Genebra um centro de aperfeiçoamento.

          A seguir, criou-se o "Administrative Staff College", em Henley, em 1948, considerado o protótipo para a instalação de centros de preparação para direção de Recherches et d'Études des Chefs d'Emtreprises (CRC), em Jouy-en-Josas, os Badener Unternehmergesprâche, na Alemanha, o Studiecentrum Bedrijfsbeleid, na Holanda e outros similares nos países escandinavos.

          As causas que facilitaram a rápida expansão destes centros, segundo Keinert (1986) foram:

1. Em primeiro lugar, a própria guerra serviu como experiência valiosa e disseminadora para demonstrar a importância capital de questões de gestão. Ela ressaltou a necessidade da obtenção da cooperação construtiva de cada indivíduo e da qualidade da previsão e do planejamento para 0 sucesso das operações de usinas que deviam trabalhar com precisão militar. Ao lado disso, o cotidiano bélico proporcionou a obrigação de tomada de decisão por parte do cidadão comum, em escala não-usual.

2. Em segundo lugar, as conseqüências da guerra se fizeram sentir- e esse fenômeno foi bastante mais agudo na Alemanha - pelos efeitos mortíferos nos quadros médios das empresas, levando à promoção rápida dos mais jovens e à preocupação de como passar a experiência dos mais velhos de forma acelerada.

3. A defesa da iniciativa privada, como reação ao crescimento dos movimentos socialistas ou socializantes do pós-guerra, produziu uma conscientização da necessidade de melhoria da qualidade da gestão como forma mais adequada de posicionamento do que a simples promoção de slogans.

4. As grandes sociedades, sobretudo as multinacionais, iniciaram um processo de descentralização de operações. Nessa situação, impunha-se uma melhor e mais uniforme preparação dos dirigentes para assegurar a integração das atividades.

5. Finalmente, não se pode esquecer a importância das verbas do Plano Marshall, que contribuíram para que um grande número de missões de estudos empresariais fossem aos EUA, assim como proporcionaram condições para a instalação e o crescimento das atividades da Agência Européia de Produtividade e dos Centros Nacionais de Produtividade. Tais instituições são apontadas como importantes centros divulgadores e sensibilizadores dos industriais para questões relacionadas com a preparação de quadros.

          É de se notar, no entanto, que a concepção de base da ação de aperfeiçoamento destes centros patrocinados pela indústria era a de que seriam instrumentos de troca e de transferência de experiências entre dirigentes.

          As Universidades, por seu turno, na época, ainda não haviam percebido a oportunidade de se engajar num ensino voltado para o atendimento das necessidades das empresas. Pelo contrário, algumas dentre elas viam com alguma dose de preconceito este engajamento. Não se havia instalado o espirito do "estension work" norte-americano nas instituições de ensino européias.

          Um nome que se destaca neste momento é o de Gast Berger, diretor-geral do ensino superior, na França. Berger tinha a opinião de que o chefe de empresa deveria ser um filósofo em ação e, desta forma, sua preparação não poderia limitar-se às simples trocas de experiências, mas também a compreensão da evolução econômica, social e cultural do meio ambiente, como ainda o bom embasamento metodológico.

          Dentro dessa perspectiva, foram criados os institutos de preparação para administradores de empresas junto às principais Universidades francesas. Os objetivos a atingir, com estes institutos, eram os de oferecer aos diplomados por outras faculdades um ano de estudos integradores para uma visão de administração de empresas e, também, de oferecer cicios de aperfeiçoamento para os dirigentes em exercício.

          O impacto positivo desta iniciativa fez-se notar desde logo. Na Grã-Bretanha, na Espanha, na Suécia e na Bélgica, o modelo passou a ser utilizado, igualmente.

          As dificuldades de sua implantação, porém, também não tardaram a aparecer. Embora houvesse bons economistas, sociólogos, psicólogos, juristas e matemáticos disponíveis nas boas escolas, não se podia formar, prontamente, um quadro de professores pesquisadores dispostos e preparados especificamente para as tarefes que a realidade complexa das empresas impunha - tarefas teis como uma aproximação interdisciplinar dos enfoques de estudo, um forte preparo para a pesquisa empírica e capacitação para utilizar métodos pedagógicos ativos com público adulto.

          Dentro desse panorama, que marca os anos que vão de 1955 a 1965, uma promoção destacou-se pela sua originalidade e eficácia. A Fundação Indústria Universidade, imaginada em 1955, na Bélgica, e instalada no ano seguinte, proporcionou uma nova modalidade de associação, ou seja, a dos poderes públicos, da indústria e da Universidade, para promover uma mudança dentro da instituição universitária, de modo a garantir um continuo aperfeiçoamento do ensino e da pesquisa voltados para a formação de quadros superiores na empresa. Em vez de criar um novo centro, a Fundação encarregou-se de buscar fundos junto às indústrias, que passaram a ser investidos no recrutamento de pessoal cientifico com experiência empresarial e com capacidade para galgar simultaneamente os escalões da carreira universitária, dentro das normas existentes. Conjugado a isso, há todo um apoio institucional do governo, não só abrindo suas Universidades a essa experiência, como servindo de elo de ligação com organismos internacionais, através dos órgãos ministeriais.

          A experiência pioneira não demorou a ser tomada como exemplo. No inicio dos anos 60, de fato, várias governos nacionais deram-se conta da importância da qualidade da gestão como um dado significativo no desenvolvimento econômico e dispuseram-se a contribuir financeiramente para a criação de entidades de mesmo tipo.

          Foi com esse espirito que se criaram, na Suécia, a "Stockholm School of Economics" e o "Centro de Aperfeiçoamento de Ystaholm", financiados pelo patronato sueco; na "Noruega, o Norwegian Council for Management" reuniu os estabelecimentos de ensino, os empregadores e os poderes públicos, de uma forma muito próxima à da Fundação Belga. Na Grã-Bretanha, criaram-se, de um lado, como resposta a um apelo de doação de fundos por parte das empresas (que seriam complementados até o dobro com verbas governamentais), duas business schools inspiradas diretamente no modelo norte-americano; de outro, a Foundation for Management Education, responsável pela gestão dos fundos recolhidos, encarregou outros organismos existentes, como a National Economic Development Organization (Nedo), o Social Science Research Coucil e o British Institute of Management (BIM), dos estudos e pesquisas que, em outros paises, eram diretamente realizados por organismos de politica governamental.

          Por fim, cabe destacar a entidade criada na França - a Fondation Nationale pour Enseignement de la Gestion des Entreprises. Essa instituição, reconhecidamente, foi determinante na evolução do ensino de gestão francês. Entre suas atividades podem ser destacadas a ajuda à pesquisa, à renovação de material pedagógico, à preparação dos formandos e ao estabelecimento de convênios para intercâmbio em nível internacional, além da manutenção de revistas periódicas de alto nível e da ajuda para edição de uma série de outras publicações de outros centros.

          Com essa reconstituição têm-se as linhas gerais do ensino de gestão, tal como evoluiu na França, Bélgica, Grã-Bretanha e Suécia, e que foi seguido mais ou menos de perto pela Espanha e pelos demais países escandinavos. Holanda, Alemanha e Áustria seguem uma história própria, em paralelo ao que acontece nos países citados, assim como a Itália.



2.3. O Ensino de Administração no Brasil

           Os cursos de administração no Brasil têm uma história muito curta, principalmente se comparamos com os EUA, onde os primeiros cursos na área se iniciaram no final do século passado, com a criação da Wharton School, em 1881. Em 1952, ano em que se iniciava o ensino de administração no Brasil, os EUA já formavam em torno de 50 mil bacharéis, 4 mil mestres e 100 doutores, por ano, em administração (Castro, 1981).
          Couvre (1982) diz que a evolução de tais cursos se apresenta como uma faceta do desenvolvimento do espírito modernizante. É neste sentido, isto é, na mudança e desenvolvimento da formação social brasileira, que devemos buscar as condições e as motivações para a criação desses cursos. Para a autora, tais motivações estão relacionadas com o caráter de especialização e uso crescente da técnica, tornando imprescindível a necessidade de profissionais para as diferentes funções de controlar, analisar e planejar as atividades empresariais.

          Segundo Martins (1989), o contexto para a formação do administrador no Brasil começou a ganhar contornos mais claros na década de quarenta. A partir desse período, acentua-se a necessidade de mão-de-obra qualificada e, conseqüentemente, a profissionalização do Ensino de Administração. O autor afirma que "o desenvolvimento de uma sociedade, até então, basicamente agrária, que passava gradativamente a ter seu pólo dinâmico na industrialização, colocou como problema a formação de pessoal especializado para analisar e planificar as mudanças econômicas que estavam ocorrendo, assim como incentivar a criação de centros de investigação vinculados à análise de temas econômicos e administrativos".
          Segundo esta visão, tratava-se de formar, a partir do sistema escolar, um administrador profissional, apto para atender ao processo de industrialização. Tal processo foi se desenvolvendo de forma gradativa, desde a década de 30. Porém, ficou acentuado no momento da regulamentação da profissão, ocorrida na metade dos anos sessenta, através da Lei n° 4.769, de 09 de setembro de 1965.           Após esta lei, o acesso ao mercado profissional seria privativo dos portadores de títulos expedidos pelo sistema universitário.
          Portanto, tal ensino veio privilegiar a participação das grandes unidades produtivas, que passaram a constituir um elemento fundamental na economia do país, principalmente a partir de 1964.
          Para Martins (1989), a grande preocupação com assuntos econômicos tem seu marco em 1943. Neste ano, realizou-se, no Rio de Janeiro, o primeiro Congresso Brasileiro de Economia, onde se manifestava grande interesse pela industrialização do país, postulando-se iniciativas concretas por parte do Estado para motivar a pesquisa em assuntos econômicos. Porém, tais estudos vinham sendo realizados basicamente nos cursos de Direito na disciplina de economia, vista como "formação geral".
          Somente em 1945, surgiram os primeiros resultados quanto à implantação desse ensino. Neste ano, Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Saúde, encaminhou à Presidência da República um documento que propunha a criação de dois cursos universitários: o de Ciências Contábeis e Ciências Econômicas. O documento afirmava que as atividades de direção e orientação, tanto nos negócios públicos como empresariais, atingiram um nível de maior complexidade, exigindo de seus administradores e técnicos conhecimentos especializados. Isto permitiu que os cursos de economia passassem a ter um caráter de especialização, não mais de natureza genérica, como anteriormente.
          A criação desses cursos assumiu um papel relevante, uma vez que passou a ampliar a organização escolar do país que, até então, se constituía apenas de engenheiros, médicos e advogados.
          Neste sentido, é significativo considerar a importância do Manifesto dos "Pioneiros da Educação Nova" quando, ainda em 1932, abordavam a necessidade de outros cursos universitários, além dos já mencionados acima.
          Couvre (1982) vem confirmar o pensamento dos autores já referidos, afirmando que o ensino de administração está relacionado ao processo de desenvolvimento do país. Salienta que sua criação intensificou-se, sobretudo, após a década de sessenta, com a expansão do ensino superior, no qual o ensino de administração está inserido.
          Segundo a autora, este processo de desenvolvimento foi marcado por dois momentos históricos distintos. O primeiro, pelos governos de Getúlio Vargas, representativo do projeto "autônomo", de caráter nacionalista. O segundo, pelo governo de Juscelino Kubitschek, evidenciado pelo projeto de desenvolvimento associado, caracterizado pelo tipo de abertura econômica de caráter internacionalista. Este último apresentou-se como um ensaio do modelo de desenvolvimento adotado após 1964. Neste período, o processo de industrialização se acentuou, sobretudo devido à importação de tecnologia norte-americana.
          O surto de ensino superior, e em especial o de administração, é fruto da relação que existe, de forma orgânica, entre esta expansão e o tipo de desenvolvimento econômico adotado após 1964, calcado na tendência para a grande empresa. Neste contexto, tais empresas, equipadas com tecnologia complexa, com um crescente grau de burocratização, passam a requerer mão-de-obra de nível superior para lidar com esta realidade.
          Para Martins (1989), o surgimento da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e a criação da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP) marcaram o ensino e a pesquisa de temas econômicos e administrativos no Brasil, contribuindo para o processo de desenvolvimento econômico do país.
          Tais instituições ocuparam uma posição dominante no campo das instituições de ensino de administração, assim como de referência do posterior desenvolvimento desses cursos.
          É importante considerar que a idéia dos criadores destas instituições era de criar um novo tipo de intelectual, dotado de uma formação técnica, capaz de revestir suas ações de conhecimentos especializados como uma estratégia indispensável ao prosseguimento das transformações econômicas iniciadas em meados dos anos trinta.
          Segundo Martins (1989), tratava-se de formar, a partir do sistema escolar, o "administrador profissional". Segundo o autor, este proceso ficaria acentuado no momento da regulamentação da profissão, ocorrida na metade dos anos sessenta - 1965 - quando o acesso ao mercado profissional seria privativo dos portadores de títulos expedidos pelo sistema universitário.
          A Fundação Getúlio Vargas (FGV) representa a primeira e mais importante instituição que desenvolveu o ensino de administração. Sua origem remonta à criação do DASP, em 1938.
          Este Órgão tinha como finalidade estabelecer um padrão de eficiência no serviço público federal e criar canais mais democráticos para o recrutamento de Recursos Humanos para a administração pública, através de concursos de admissão.
          A idéia da criação da nova Instituição foi bem acolhida pelo então presidente da República, Getúlio Vargas, que autorizou o DASP (Departamento de Administração do Serviço Público) a promover a abertura de uma entidade voltada ao estudo de princípios e métodos da organização racional do trabalho, visando à preparação de pessoal qualificado para a administração pública e privada. Surge, através do Decreto n° 6.933, a FGV, próxima do pólo dominante dos campos do poder político e econômico.
          Foi na Fundação Getúlio Vargas que surgiram os primeiros institutos de investigação sobre assuntos econômicos do país, com propósito de fornecer resultados para as atividades dos setores estatal e privado.
          Segundo Martins (1989), a Fundação Getúlio Vargas tem apresentado um vínculo entre seus organizadores e o ensino universitário norte-americano, de onde proveio a inspiração para estruturá-la em termos de fundação.
          A criação da FGV ocorreu num momento em que o ensino superior brasileiro desloca-se de uma tendência européia para uma tendência norte-americana. Isto é evidente, uma vez que a FGV tomou como referência os cursos daquele país.
          Segundo o autor, o objetivo da Fundação era formar especialistas para atender ao setor produtivo e para tal inspirou-se em experiências norte-americanas. Em 1948, representantes desta Instituição visitaram vinte e cinco Universidades americanas que mantinham cursos de administração pública, com o intuito de conhecer diferentes formas de organização. Isto favoreceu a realização de encontros entre representantes da Fundação Getúlio Vargas e professores norte-americanos quanto à criação de uma escola, visando ao treinamento de especialistas em administração pública.
          Fruto destas relações, em 1952, tivemos a criação da Escola Brasileira de Administração Pública (EBAP), pela Fundação Getúlio Vargas, com o apoio da ONU e da UNESCO para a manutenção inicial. O convênio com tais organismos internacionais previa a manutenção de professores estrangeiros na escola e bolsas de estudo para o aperfeiçoamento no exterior dos futuros docentes.
Martins (1989) afirma que, com a criação da EBAP no Rio de Janeiro, a Fundação Getúlio Vargas preocupou-se com a criação de uma escola destinada especificamente à preparação de administradores de empresas, vinculada ao mundo empresarial, com o objetivo de formar especialistas em técnicas modernas de administração empresarial.
          Esta situação permitiu, em 1954, a criação da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP). É importante considerar que a FGV escolheu esta cidade por ser considerada a capital econômica do país, "coração e cérebro da iniciativa privada", com o intuito de atender às expectativas do empresariado. Para a implantação de tal escola, a Fundação Getúlio Vargas buscou apoio do governo federal, do Estado de São Paulo e da iniciativa privada.
          Para iniciar as atividades nesta nova Instituição, a Fundação Getúlio Vargas firmou um acordo com a USAID (Desenvolvimento Internacional do Governo dos Estados Unidos). Neste convênio, o governo norte-americano se comprometia a manter junto a esta escola uma missão universitária de especialistas em administração de empresas, recrutada junto à Universidade Estadual de Michigan. Por outro lado, a Fundação Getúlio Vargas enviaria docentes para estudos de pós-graduação nos Estados Unidos, com o intuito de preencher os quadros do corpo docente da EAESP. Tal convênio revela a influência do ensino de administração norte-americano na realidade brasileira, evidenciado, sobretudo, através dos currículos e bibliografias.
          Segundo Martins (1989), a missão universitária norte-americana atuou nesta instituição até 1965, fornecendo uma forte estrutura acadêmica, e permitindo-lhe ocupar uma posição dominante no funcionamento dos cursos de administração na sociedade brasileira.
          Para Schuch Júnior (1978), com a criação da Escola de Administração de Empresa de São Paulo (EAESP), surgiu o primeiro currículo especializado em Administração, tendo influenciado, de alguma forma, o movimento posterior nas instituições de ensino superior do país.
          Segundo Martins (1989), a partir da década de sessenta, a Fundação Getúlio Vargas passou a criar cursos de pós-graduação na área de Economia, Administração Pública e de Empresas. Em meados dessa década, iniciou a oferta regular dos cursos de mestrado.

          Com a criação dos cursos de mestrado, a Fundação Getúlio Vargas passou a ser o centro formador de professores para outras instituições de ensino, no momento em que ocorreu uma enorme expansão dos cursos de administração. Fruto dessa expansão, na metade da década de setenta, passou a ministrar um programa de doutorado nesta área.
          Outra Instituição de muita relevância para o desenvolvimento do ensino de administração tem sido a Universidade de São Paulo (USP). Surgiu da articulação de políticos, intelectuais e jornalistas, vinculados ao jornal de São Paulo.
          Para Martins (1989), foi em 1934 que surgiu a Universidade de São Paulo, através da aglutinação de faculdades já existentes e da abertura de novos centros de ensino.
          Em 1946, é criada a Faculdade de Economia e Administração - FEA - que tinha por objetivo formar funcionários para os grandes estabelecimentos de administração pública e privada.
          O fator que veio repercutir na criação da FEA foi principalmente o grande surto de industrialização, quando surgiram empresas movimentando altos capitais que exigiram, para sua direção, técnicas altamente especializadas.
          Assim como a Fundação Getúlio Vargas, através da EBAP e da EAESP, também a Faculdade de Economia e Administração foi criada com um objetivo prático e bem definido, isto é, atender, através da preparação de recursos humanos, às demandas oriundas do acelerado crescimento econômico.
          Martins (1989) afirma que foram os interesses públicos e privados que influenciaram na criação da FEA. Segundo o autor, o objetivo era de prestar colaboração às empresas privadas e a todos os órgãos do serviço público.
          Desde o seu início, procurou criar relações principalmente com a administração pública local. Estabeleceu contato com a Federação das Indústrias, com a Associação Comercial do Estado e com a iniciativa privada. Tais relações permitiram que o quadro de professores acumulasse, além de suas funções didáticas, um trabalho de assessoria junto a organismos privados e à administração estatal.
          No interior da FEA, foram criados institutos que desempenharam um papel estratégico para sua articulação com o campo do poder econômico, na medida em que passou a prestar serviços a organismos públicos e privados.
          É importante mencionar o Instituto de Administração, criado em 1946, que, juntamente com a FEA, foi, até 1966, muito importante na orientação de projetos e pesquisas para a administração pública e estatal.
          Quanto à sua origem, a Faculdade de Economia e Administração, nos seus primeiros vinte anos, possuía apenas os cursos de Ciências Econômicas e Ciências Contábeis, deixando de oferecer os cursos de administração. Mesmo assim, ambos os cursos evidenciavam um conjunto de disciplinas que tratavam de questões administrativas. O Instituto de Administração tinha por objetivo realizar pesquisas na área. Esta orientação permitiu o surgimento da Revista de Administração, através do Departamento de Serviço Público.
          Somente no início dos anos sessenta, a Faculdade de Economia e Administração sofreu algumas alterações estruturais, dando origem ao Departamento de Administração, composto por disciplinas integradas aos cursos de Ciências Econômicas e Ciências Contábeis. Segundo Martins (l989), nesta época, surgiram os primeiros cursos de pós-graduação nesta Faculdade, inclusive em Administração, embora ainda não existisse o curso de graduação. Isto só veio a ocorrer em 1963, quando passou a oferecer os cursos de Administração de Empresas e de Administração Pública.
          É importante considerar que, enquanto a criação da EBAP e EAESP correspondeu a um momento histórico, em que o segundo Governo de Vargas procurou conduzir uma política econômica, baseada na criação de empresas estatais e empresas privadas nacionais, retomando ao tema do nacionalismo, a criação do curso de Administração da FEA coincidiu com um momento em que a grande empresa estrangeira havia se consolidado no mercado interno nacional.
          A partir de 1972, o Instituto de Administração foi reestruturado, não mais ligado a um grupo de disciplinas, mas ao Departamento de Administração. Seu principal objetivo tem sido prestar serviços a entidades públicas e privadas, realizando pesquisas e treinamento de pessoal. Segundo Martins (1989), os serviços prestados geraram um fundo de pesquisa, transformando-o num órgão captador de recursos no interior da FEA.
          Observa-se também que a criação e evolução dos cursos de administração na sociedade brasileira, no seu primeiro momento, foram feitas no interior de Instituições Universitárias, fazendo parte de um complexo de ensino e pesquisa. Essas escolas transformaram-se em pólos de referência para a organização e funcionamento deste campo.

          No final dos anos sessenta, a evolução dos cursos de administração ocorreria, não mais vinculada a Instituições Universitárias, mas às Faculdades isoladas que proliferaram dentro do processo de expansão privatizada na sociedade brasileira.

          Esta expansão, segundo Martins (1989), também está relacionada às transformações ocorridas no plano econômico.
          A partir da década de sessenta, o estilo de desenvolvimento privilegiou as grandes unidades produtivas na economia do país. Ocorreu o crescimento acentuado das grandes empresas, principalmente estrangeiras e estatais, permitindo a utilização crescente da técnica. Isso implicou diretamente na necessidade de profissionais com treinamento específico para executar diferentes funções internas das organizações. Em face desta situação, as grandes empresas passaram a adotar a profissionalização de seus quadros, tendo em vista o tamanho e complexidade das estruturas. Isso veio a constituir um espaço potencial para a utilização dos administradores que passaram pelo sistema escolar.

          Com as mudanças econômicas, um novo acontecimento acentuou a tendência à profissionalização do administrador. A regulamentação dessa atividade ocorreu na metade da década de sessenta, pela Lei n° 4.769 de 09 de setembro de 1965. A presente Lei, no seu artigo 3, afirma que o exercício da profissão de Técnico em Administração é privativo dos Bacharéis em Administração Pública ou de Empresa, diplomados no Brasil, em cursos regulares de ensino superior, oficial, oficializado ou reconhecido, cujo currículo seja fixado pelo Conselho Federal de Educação, nos termos da Lei n° 4.024, de 20 de dezembro de 1961, que fixa as Diretrizes e Bases da Educação no Brasil. Isso veio ampliar um vasto campo de trabalho para a profissão de administrador.

          Segundo Schuch Júnior (1978), no ano seguinte à regulamentação da profissão, através do parecer n° 307/66, aprovado em 08 de julho de 1966, o Conselho Federal de Educação fixou o primeiro currículo mínimo do curso de administração. Ficavam, assim, institucionalizadas, no Brasil, a profissão e a Formação de Técnico em Administração.

          As diretrizes do parecer se inspiraram na análise das condições reais da Administração do país e nos postulados que emanavam da lei e da doutrina fixada na experiência nacional e internacional.

          Tal currículo procurou agrupar matérias: de cultura geral, objetivando o conhecimento sistemático dos fatos e condições institucionais em que se insere o fenômeno administrativo; as instrumentais, oferecendo os modelos e técnicas, de natureza conceitual ou operacional; e as de formação profissional.

          Com a liberdade dada pelo currículo, as escolas puderam ministrar as matérias do currículo mínimo com diferentes dosagens de tempo e de acento quanto aos objetivos, assim como organizar cursos ou seminários de aplicação mais restrita ou especializada.

          Tem-se de superar certa tendência atomística que decompõe o currículo em todos os elementos que poderá abranger, adicionados, depois, como matérias autônomas: e a tendência prevalece ao longo da tradição educacional, a que se deve a excessiva densidade dos planos de estudo. Dentro dessa orientação, mais ou menos mecânica, torna-se impraticável a redução, salvo por processo igualmente mecânico que elimina, mutilando.

          De acordo com o parecer nº 307/66, o currículo mínimo do curso de Administração, que habilita ao exercício da profissão de Técnico de Administração, foi constituído das seguintes matérias:

  • Matemática;
  • Estatística;
  • Contabilidade;
  • Teoria Econômica;
  • Economia Brasileira;
  • Psicologia Aplicada à Administração;
  • Sociologia Aplicada à Administração;
  • Instituições de Direito Público e Privado (incluindo Noções de Ética Administrativa);
  • Legislação Social;
  • Legislação Tributária;
  • Teoria Geral da Administração;
  • Administração Financeira e Orçamento;
  • Administração de Pessoal;
  • Administração de Material.

          Além desse elenco de matérias, tornou-se obrigatório o Direito Administrativo, ou Administração de Produção e Administração de Vendas, segundo a opção do aluno. Ainda, para obterem o diploma, os alunos tinham que realizar um estágio supervisionado de seis meses.

          A partir dessa regulamentação, procurou-se instituir organismos que controlassem o exercício da profissão. Criavam-se os Conselhos Regionais.

          Segundo Martins (1989), a função de tais organismos era fiscalizar o desempenho da profissão e expedir as carteiras profissionais. Só poderiam exercer a profissão aqueles registrados nos Conselhos Regionais de Administração - CRAs. Este organismo passaria a ter um forte controle sobre as condições de acesso à profissão.

          Isso nos mostra que a regulamentação da profissão de Administrador, ao institucionalizar que o exercício seria privativo daqueles que possuíam o título de bacharel em Administração, contribuiu de forma acentuada para a expansão desses cursos.

          Segundo Souza (1980), outro fator que contribuiu significativamente neste processo de profissionalização foram as leis da Reforma do Ensino Superior. Estas leis estabeleceram claramente níveis de ensino tipicamente voltados às necessidades empresariais. Assim como permitiram o surgimento de Instituições Privadas para que, juntamente com as Universidades, pudessem corresponder à grande demanda de ensino superior desde a década de cinqüenta.

          A Lei nº 5.540, nos seus artigos 18 e 23, afirma que "os cursos profissionais poderão, segundo a área abrangida, apresentar modalidades diferentes quanto ao número e à duração, a fim de corresponder às profissões reguladas em Lei. As Universidades e os estabelecimentos isolados poderão organizar outros cursos para atender às exigências de sua programação específica e fazer face à peculiaridade do mercado de trabalho regional".

          Segundo Castro (1981), tais acontecimentos repercutiram significativamente, uma vez que, num intervalo de trinta anos, o ensino de administração alcançou uma dimensão significativa na sociedade brasileira. Contando apenas com dois cursos em 1954, a EBAP e a EAESP, ambos mantidos pela Fundação Getúlio Vargas, passou-se para 31, em 1967, saltando para 177 cursos no ano de 1973, para 244 em 1978 e para 354 em 1995.

          Esta relação entre prática profissional e a obtenção de títulos específicos impulsionou aqueles que aspiravam a ter acesso a funções econômico-administrativas, em órgãos públicos ou privados, a ingressar em centros de ensino que oferecessem tal habilitação.

          Assim, também aqueles que já desenvolviam tais atividades no mercado profissional foram impulsionados a buscar o título universitário para obter promoções.

          Neste contexto, um dos aspectos que merecem ser destacados na expansão dos cursos de Administração é a considerável participação da rede privada neste processo, ocorrida a partir do final dos anos sessenta. No início da década de oitenta, o sistema particular era responsável por aproximadamente 79% dos alunos, ficando o sistema público com o restante. O mesmo ocorreu nas demais áreas de conhecimento, onde a distribuição era de 61% para a rede privada.

          Para Martins (1989), outro fator importante que envolve o ensino privado, são os estabelecimentos isolados, isto é, instituições não-universitárias, que absorvem 63% de todos os alunos de administração do país. Segundo o autor, se acrescentarmos a este número os estudantes dos estabelecimentos isolados, municipais e estaduais, pode-se verificar que no início da década de oitenta, cerca de 70% dos alunos de graduação em administração encontram-se neste tipo de Instituição.

          Ao contrário das primeiras escolas, que nasceram próximas aos campos do Poder econômico e político, as novas escolas, de maneira geral, nasceram eqüidistantes das expectativas e dos grupos que ocupavam posições dominantes naqueles campos. O aparecimento delas partiu da iniciativa de atores que atuavam no setor educacional, aproveitando-se do momento em que o Estado pós-64 abriu um grande espaço para a iniciativa privada, visando a atender à crescente demanda de acesso ao ensino de 3º grau.

          Martins (1989) diz que a abertura dos cursos apresentava-se vantajosa, uma vez que poderiam ser estruturadas sem muitos dispêndios financeiros. Tais cursos buscavam uma certa rentabilidade acadêmica, procurando adaptar suas práticas acadêmicas aos grandes centros que desfrutam de maior legitimidade. Observa-se uma relação assimétrica, em que as primeiras escolas de administração têm, enquanto tendência, que produzir para o setor público e privado uma elite administrativa vinculada aos pólos dominantes dos campos do poder político e econômico. Enquanto que, por outro lado, as novas instituições têm produzido os quadros médios para as burocracias públicas e privadas que, em função de sua complexidade, necessitam de pessoal para suas rotinas, isto é, um pessoal treinado para questões econômico-administrativas.

          Outro fator, também fruto da expansão dos cursos de administração na sociedade brasileira, é a concentração desse ensino em determinadas regiões. No início da década de oitenta, as regiões sudeste e Sul resondiam por 80.722 alunos e 81% de todo o ensino de administração do país. Estes dados indicam uma forte prevalência das regiões de maior concentração e diferenciação produtiva, onde se localizam as maiores oportunidades em termos de mercado de trabalho para esta profissão.

          Quanto a influência norte-americana é um fato notório, uma vez que todo o sistema de ensino brasileiro, a partir da década de sessenta, adotou aquele sistema. Porém, é lamentável que não se tenha mantido atualizado e compatível com a realidade.

          Souza (1980) afirma que o que ocorre no Brasil, como reflexo da fragilidade dos cursos de Administração, é que somente quando a demanda se concretiza, o sistema educacional passa a providenciar a formação de mão-de-obra. A conseqüência dessa realidade leva as empresas que demandam esse tipo de profissional a importar ou treinar profissionais por falta de pessoal qualificado. Trata-se de um problema sério para os quais as Universidades devem buscar soluções com intuito de aperfeiçoar tal ensino.

          Segundo Silva (1971), as Universidades mais respeitadas nesse campo de conhecimento procuram formar Administradores para empresas do futuro e não para as empresas de hoje ou ontem.

          Por outro lado, Siqueira (1987) afirma que a preocupação não deve estar apenas voltada para a preparação de profissionais para as empresas privadas. Segundo ele, no momento em que o Brasil se encaminha para uma sociedade democrática, parece oportuno defender a formação de um profissional capaz de atuar em outras formas organizacionais, tais como: associações de bairros, cooperativas, pequenas empresas e outros campos novos à espera de formas organizacionais inovadoras, além do seu tradicional campo de empresas.
Assim, com a preocupação de melhorar a qualidade dos cursos de Administração, várias instituições somaram esforços na mesma direção. A ANGRAD - Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Administração e o CFA - Conselho Federal de Administração trabalharam conjuntamente para aprovação do novo currículo mínimo de Administração, aprovado em 1993.

          O currículo deve ser entendido dentro de sua dimensão mais ampla de desempenhos esperados, de desejado relacionamento com o meio a que serve, suas instituições, organizações, professores, alunos, empresas, envolvendo-se com sua ideologia e filosofia de educação.

          No caso específico de Administração, deve responder não somente às necessidades do mercado de trabalho, mas também mudar seu enfoque de solucionador de problemas, reprodutor das forças produtivas e das relações sociais, para promotor de novas relações produtivas e sociais.

          Constitui-se em agente transformador capaz de ajustar-se com rapidez aos avanços das ciências e da tecnologia no estabelecimento de uma nova ordem.

          A síntese de sua metodologia deve implicar numa integração dos conhecimentos parciais, num todo orgânico e lógico, podendo dar origem a um novo conhecimento ou novas formas de ação.

          O impacto da tecnologia no desenvolvimento, por exemplo, está a requerer uma permanente atualização daquelas ações educacionais, ante as transformações que se sucedem, principalmente no nível das técnicas, das ciências, da organização e do controle do processo de trabalho.

          É exatamente dentro desse quadro de considerações que a escola tem que construir suas propostas curriculares com elevado comprometimento metodológico com o permanente repensar do seu quotidiano.

          É imperioso que se consolide na ação educativa a convicção de que precisamos educar para o desconhecido, ante um mundo de complexidade crescente que se transforma rapidamente.

          Antes que treinar e adestrar alunos, é indispensável iniciá-los na ultrapassagem das fronteiras do já conhecido.

          É preciso perder o culto idolátrico de modelos consagrados de ensino, visto que não existe um caminho único para objetivos diferentes, e o meio e as demandas daqui quase que necessariamente não serão idênticos aos de acolá.

          Tudo isto está a indicar uma enérgica mudança de atitude ante a posição convencional de tratamento do chamado "currículo mínimo"...

          As Instituições de Ensino devem convencer-se de que o currículo é apenas um instrumento a serviço da aprendizagem e não um fim em si mesmo.

          Sua concepção há de ser a de um conjunto solidário de matérias suficientemente nucleares para atenderem, na sua fecundidade e segundo uma metodologia dinâmica, aos objetivos gerais e específicos de determinado curso.

          O Currículo Mínimo é a chamada matéria-prima a ser convenientemente trabalhada no currículo pleno de cada escola.

          Toda liberdade criadora em torno daquelas matérias, entendidas como fontes exploratórias, constitui o princípio mais importante nessa mudança de atitude e implica ter no currículo mínimo um parceiro indicativo e não uma "norma" limitativa e inibidora.

          Significa dizer que o currículo mínimo constitui-se uma fonte para a escola promover as mais diversas explorações, combinando livremente os seus elementos sob a forma de atividades ou disciplinas, no jogo situações concretas x conhecimentos.

          Com a liberdade que sempre deteve e raramente exercitou, a escola pode ministrar as matérias do currículo com diferentes dosagens em função de seus objetivos, assim como, implicitamente, associados a elas.

          Nesse particular, tem sido freqüentemente a solicitação de se incluirem, no currículo mínimo, questões que constituem muito mais temas às vezes até bastante oportunos, mas que não chegam a caracterizar matérias, no sentido mais orgânico que se empresta ao termo.

          Cumpre, portanto, à escola, no exercício de competência que é sua, construir com esses elementos novos pontos de enfoque, ou mesmo novas disciplinas. O problema essencial não é criar uma arquitetura curricular com uma lista de tópicos a serem atingidos, numa visão empobrecida, negativa, que, usualmente, tem limitado e inibido a autonomia e a criatividade da escola na formulação e implementação de sua proposta pedagógica.

          O fundamental é a utilização, na construção do currículo pleno, de uma metodologia que utilize o currículo mínimo como um instrumento que propicie desempenhos esperados e não como proposta acabada em si mesma.

          Uma metodologia que enseje, no caso da Administração, por exemplo, a cada escola conferir organicidade ao estudo de todas as variáveis que interferem no fato administrativo, sejam elas políticas, sociais ou econômicas, em função de seus objetivos, sua história e herança e em função das necessidades de sua clientela. Uma metodologia que enfatize uma sólida formação intelectual, que estimule o senso crítico e a mente analítica, pois, se há uma lógica e uma metodologia quase que imanente para as matérias tradicionais de um curso de Administração, o mesmo não se pode dizer para os demais aspectos hoje necessariamente envolvidos com a evolução da Administração.

          Uma estrutura curricular, segundo este senso de organização, envolve um trabalho metodológico das matérias de cultura geral, instrumentais e as de formação profissional, despojado de fronteiras rígidas e conseqüente compartimentação estanque.

          A incorporação de algumas características intelectuais indispensáveis a um moderno curso de Administração, tais como: comunicação interpessoal, ética profissional, capacidade de adaptação, são exigências dos dias de hoje.

          Buscar, portanto, um currículo que atenda às necessidades do meio social e eventualmente aos projetos deste ou aquele segmento da sociedade significa imprimir a esse currículo, antes que uma arquitetura monolítica, uma construção que, sendo organicamente articulada, também seja permeável às demandas de entradas e reentradas, tanto de clientela, como de conteúdos que venham ao encontro das necessidades de um país em processo de definição como o nosso, ainda em busca de modelos institucionais que estejam mais próximos dos fatos, e por isso mesmo, mais aptos a fomentar-lhe a força criadora.

          Tendo presente as considerações resultantes dos vários encontros promovidos pela ANGRAD e pelo CFA, chegou-se ao novo currículo mínimo do Curso de Administração. A Resolução nº 2, de 04 de outubro de 1993, "Fixa os mínimos de conteúdos e duração do curso de Graduação em Administração".

"Art. 1º O currículo mínimo do Curso de Graduação em Administração, que habilita ao exercício da profissão de Administrador, será constituído das seguintes matérias:


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FORMAÇÃO BÁSICA E INSTRUMENTAL

  • Economia
  • Direito
  • Matemática
  • Estatística
  • Contabilidade
  • Filosofia
  • Psicologia
  • Sociologia
  • Informática

Total: 720 h/a (24%)


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FORMAÇÃO PROFISSIONAL

  • Teorias da Administração
  • Administração Mercadológica
  • Administração da Produção
  • Administração de Recursos Humanos
  • Administração Financeira e Orçamentária
  • Administração de Materiais e Patrimoniais
  • Administração de Sistemas de Informação
  • Organização, Sistemas e Métodos

Total: 1.020 h/a (34%)


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DISCIPLINAS ELETIVAS E COMPLEMENTARES

Total: 960 h/a (32%)


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ESTÁGIO SUPERVISIONADO

Total: 300 h/a (10%)

Art. 2º - O curso de Administração será ministrado no tempo útil de 3.000 horas-aulas, fixando-se para sua integralização o mínimo de 04 (quatro) e o máximo de 07 (sete) anos letivos. Aquele limite incluirá o tempo a ser dedicado ao objetivo de conhecimento da realidade brasileira de que trata o art. 2ª da Lei 8.663, de 14 de junho de 1993, segundo critérios fixados pelas instituições. A prática de Educação Física, também obrigatória, terá carga horária adicional.

Art. 3º - Além da habilitação geral prescrita em lei, as instituições poderão criar habilitações específicas, mediante intensificação de estudos correspondentes às matérias fixadas nesta Resolução e em outras que venham a ser indicadas para serem trabalhadas no currículo pleno.

Parágrafo único - a habilitação geral constará do anverso do diploma e as habilitações específicas, não mais de duas de cada vez, serão designadas no verso, podendo assim o diplomado completar estudos para obtenção de novas habilitações.

Art. 4º - Os mínimos de conteúdo e duração, fixados nesta Resolução serão obrigatórios a partir de 1995, podendo as instituições que tenham condições para tanto e assim desejarem aplicá-los a partir de 1994.

Art. 5º - Na obtenção de graduação em Administração, por diplomados em outros cursos, caberá às escolas o estabelecimento de critérios flexíveis de aproveitamento de estudos obtidos pelo aluno em seu curso anterior, especialmente quanto aos programas de estudos e respectiva dosagem, obedecidas as normas legais (Súmula-2/92 CFE).

Parágrafo Único - A graduação obtida nos termos deste artigo deverá ser ministrada no tempo útil de 1.350 horas-aula."
Dessa forma, o curso de Administração deve buscar a construção de uma base técnico-científica que permita aos alunos desenvolverem um processo de autoquestionamento e aprendizado, de modo a torná-los capazes de absorver, processar e se adequar, por si mesmos, às necessidades e aos requerimentos das organizações do mundo moderno.

          De acordo com essa filosofia, a educação é concebida como um instrumento que oferece ao indivíduo a oportunidade de construir a sua própria formação intelectual e profissional. Nessa linha, o curso caracteriza-se por uma orientação de permanente estímulo à imaginação e à criatividade dos alunos, procurando exercitar seu raciocínio analítico, inspirar sua capacidade de realização e desenvolver suas habilidades de expressão oral e escrita.

          Ainda, mais do que qualquer época, a gestão eficaz de recursos representa hoje em dia um grande desafio para a sociedade, uma verdadeira prioridade nacional. Vivem-se tempos em que a busca de soluções adequadas para um desenvolvimento equilibrado, nos campos econômico e social, tem sido alvo de constantes e inadiáveis discussões, dentro de um ambiente de crescente complexidade e permanente mudança. Para enfrentar tal desafio, um importante papel é destinado ao ensino empresarial e às instituições de ensino superior, sejam elas Universidades ou Faculdades Isoladas.


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PERSPECTIVAS DO ENSINO DE ADMINISTRAÇÃO NO BRASIL

          Os anos 90 presenciou mudanças substantivas na dinâmica do capitalismo internacional, tais como: a mundialização dos mercados e sua crescente integração; a tendência à conglomeração das empresas; a mudança nas formas de concorrência; a cooperação interindustrial, dentre outras.

          Além disso, a forte segmentação da força de trabalho ocorre num quadro de desmobilização de movimentos reivindicatórios e de dificuldades de organização e sindicalização dos administradores.

          Surge, então, um fenômeno paradoxal: a ampliação do trabalho precarizado e informal e a emergência de um trabalho revalorizado. Este último requer do administrador uma multiqualificação e polivalência em trabalhos que agora são muito mais intelectuais do que manuais, e a capacidade de diagnóstico, de solucionar problemas, de intervir no processo de trabalho, auto-organizar-se e enfrentar situações de constantes mudanças, além, é claro, de trabalhar em equipe. O administrador deve ser um generalista e não um especialista.

          É neste contexto que retorna à agenda de discussões o papel dos Cursos de Administração. A formação deste Administrador polivalente depende de uma competência construída a longo prazo que só uma ampla base educacional proporciona.

          Diante do modelo da especialização flexível e dos novos conceitos de produção, a divisão técnica do trabalho se tornou menos evidenciada, o que tornou o trabalho cada vez mais abstrato, mais intelectualizado, mais autônomo, coletivo e complexo. O próprio objeto do trabalho se torna imaterial: informações, signos e linguagens simbólicas.
          Com o avanço tecnológico, as tarefas estão se tornando indeterminadas pelas possibilidades de usos múltiplos dos próprios sistemas, e a tomada de decisões passa a depender da captação de uma multiplicidade de informações obtidas através das redes informatizadas. Assim, o Administrador, diante da imprevisibilidade das situações, tem que fazer escolhas e opções o tempo todo.

          Todas estas características do trabalho nos setores em que vigoram os novos conceitos de produção tornam questionáveis noções como qualificação para o posto de trabalho ou emprego. O trabalho já não pode mais ser pensado a partir da perspectiva de um determinado posto, mas de famílias de ocupações que podem e devem ser consolidadas a partir de um conjunto de competências e habilidades. Trata-se da qualificação real do Administrador: o conjunto de competências e habilidades, saberes e conhecimentos, que provêm de várias instâncias, tais como formação geral (conhecimento científico), formação profissional e experiência de trabalho e social. A qualificação real dos administradores é muito mais difícil de ser observada e constitui-se muito mais no "saber-ser" do que no "saber fazer".

          O conjunto de competências que os Cursos de Administração terão que colocar em ação, por meio da articulação dos vários saberes oriundos de várias esferas, para resolver problemas e enfrentar situações de imprevisibilidade, constituem características desta qualificação real.



2.4. Referências Bibliográficas e Bibliografia

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Prof. Dr. Rui Otávio Bernardes de Andrade
Presidente do Conselho Federal de Administração