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:: História
e Perspectiva dos Cursos de Administração no Brasil
A
Administração no Brasil, segundo registros históricos
disponíveis, teve os seus primórdios em 23 de junho
de 1931, quando foi fundado em São Paulo o "Instituto
de Organização Racional do Trabalho", mais conhecido
pela sigla 'IDORT', sob a Presidência do Dr. Armando Sales
de Oliveira, assistido, tecnicamente pelo Prof. Roberto Wange, nascido
em Genebra, na Suíça, e naturalizado brasileiro, que
tinha sido contratado como professor da Escola de Engenharia da
Universidade de São Paulo, e introduziu no Brasil os fundamentos
da Reorganização e da Organização.

2.1. 0 Ensino de Administração nos Estados Unidos
A
educação superior em administração tem
uma história de mais de 100 anc nos Estados Unidos, berço
do ensino de Administração. Na Marquette University,
curso de administração
vem sendo ministrado há mais de 80 anos. Em 1988, 24% d todos
os calouros escolheram a área de administração. Em
1993, formaram-se 250.00 mil Bacharéis em Administração.
As
escolas de administração e a formação em administração
continuem send uma parte importante do cenário universitário
dos Estados Unidos. A administração uma das mais novas áreas
de conhecimento. Nasceu do reconhecimento da especificidades das
relações, no mercado, a partir do contexto econômico.
Hoje incorpor conhecimentos de várias outras áreas
como antropologia, psicologia e sociologia.
A
tendência atual sugere a compatibilização de competitividade
com cooperaçã em um mundo global.
Com
o passar do tempo, desde o inicio do século, pode-se perceber
que os velho padrões que transmitiam um corpo comum de conhecimentos
administrativos e muit' específico, transformou-se no núcleo
do curriculo de quase todas escolas de administraç3~ dos
Estados Unidos e aparentemente de todo o mundo. Complexas exigências
en contabilidade, economia, marketing, produção, finanças,
comportamento organizacional matemática e estratégia,
entre outras áreas, foram consideradas básicas. Os
velho padrões estavam inibindo as escolas de satisfazerem
as necessidades específica' dos estudantes que estavam se
formando.
Dentro
do contexto de mudança geral de padrões, os currículos
foram alterados já que nem todos os estudantes de administração
careciam necessariamente do mesmo currículo. Na verdade,
o reconhecimento da necessidade de se preparar o profissional para
um meio cada vez mais complexo é o ponto de partida dos padrões
curriculares
- Vida Acadêmica
Ativa: Vontade e capacidade de participar de atividades escolares
e melhores práticas profissionais são consideradas
importantes por 25 por cento das faculdades de administração;
- Motivasão
para Atualização Continua: Sessenta por cento dos
questionados acredita que os formados em administração
deveriam ativamente procurar oportunidades para atualização
continua dos conhecimentos;
- Competência
Conceitual: As faculdades de administração consideram
mais importante a compreensão dos fundamentos teóricos
do que a competência técnica ou capacidade para resolver
os problemas profissionais;
- Capacidade de Integração:
A capacidade de integrar teoria e prática é considerada
mais importante do que competência conceitual ou técnica.
Matérias
tais como liderança, administração de crise,
capacidade de negociação, comunicação
e "meeting management" são ignoradas em grande
parte. Entretanto, dos estes assuntos são importantes para
o sucesso na administração. Não ministrá-los
equivale, provavelmente, a não ensinar argumentação
e procedimentos em tribunal um advogado.
O Comitê, dessa
forma, sugeriu uma abordagem-matriz, a saber:
»
DISCIPLINAS
TRADICIONAIS TÓPICOS EMERGENTES
- CONTABILIDADE
- ECONOMIA
- FINANÇAS
RECURSOS HUMANOS
- MARKETING
- SISTEMAS DE INFORMACÃO
- PESQUISA OPERACIONAL
- COMPORTAMENTO
ORGANIZACIONAL, etc ÉTICA ADMINISTRATIVA
- GLOBALIZAÇÃO
- MEIO AMBIENTE
- ADMINISTRACÃO
DA TECNOLOGIA
- CONTROLE DA QUALIDADE
TOTAL
- EMPRESARIADO,
etc
Por
exemplo, quando o estudante estuda marketing deve sempre pensar
em marketing dentro do contexto global, consciente das questões
éticas, passando a entender como a função comercial
utiliza a informação e a tecnologia de informação.
Se um estudante pensa em desenho industrial, este deve pensar automaticamente
nos países culturas onde o produto será comercializado
(global) e se será um produto seguro para o meio ambiente
(ética). Quando se consideram os canais de informação
e os níveis adequados de levantamento, espera-se que o estudante
esteja considerando o impacto do fluxo de informação.
Naturalmente, todos estes tipos de preocupações começam
a formar um tipo de cultura dirigida para a qualidade em função
do mercado.

2.2 0 ensino de Administração na Europa
A
preparação para as funções dirigentes
que se fazia antes da 11 Guerra Mundial caracterizava-se pela concentração
dos estudos em torno de uma disciplina, em geral de contabilidade
e/ou por uma grande acumulação de conhecimentos técnicos.
Era o que predominava nas faculdades de Ciências Econômicas
Aplicadas da Alemanha, nas "Écoles de Comercie"
franceses e nos "Technical Colleges" da Grã-Bretanha
(Keinert, 1 986).
A
despeito do reconhecimento da utilidade desse tipo de estudo, pouco
a pouco foi ficando evidente que, como preparação
para as responsabilidades de direção, não eram
melhores do que o estudo de direito ou de filosofia e letras ou
de engenharia. Começava-se a perceber, então, que
a competência do dirigente devia-se mais à formação
do espirito do que ao domínio de técnicas.
De
outro lado, havia forte resistência por parte dos dirigentes,
tanto do setor público quanto do setor privado, a participar
de cursos de aperfeiçoamento e, mesmo, a acreditar que a
Universidade ou os institutos isolados pudessem vir a contribuir
eficazmente para a formação de quadros para os escalões
de decisão das empresas. Essa situação começou
a modificar-se a partir de 1946, quando uma sociedade multinacional
instalou em Genebra um centro de aperfeiçoamento.
A
seguir, criou-se o "Administrative Staff College", em
Henley, em 1948, considerado o protótipo para a instalação
de centros de preparação para direção
de Recherches et d'Études des Chefs d'Emtreprises (CRC),
em Jouy-en-Josas, os Badener Unternehmergesprâche, na Alemanha,
o Studiecentrum Bedrijfsbeleid, na Holanda e outros similares nos
países escandinavos.
As
causas que facilitaram a rápida expansão destes centros,
segundo Keinert (1986) foram:
1. Em primeiro lugar,
a própria guerra serviu como experiência valiosa e
disseminadora para demonstrar a importância capital de questões
de gestão. Ela ressaltou a necessidade da obtenção
da cooperação construtiva de cada indivíduo
e da qualidade da previsão e do planejamento para 0 sucesso
das operações de usinas que deviam trabalhar com precisão
militar. Ao lado disso, o cotidiano bélico proporcionou a
obrigação de tomada de decisão por parte do
cidadão comum, em escala não-usual.
2. Em segundo lugar,
as conseqüências da guerra se fizeram sentir- e esse
fenômeno foi bastante mais agudo na Alemanha - pelos efeitos
mortíferos nos quadros médios das empresas, levando
à promoção rápida dos mais jovens e
à preocupação de como passar a experiência
dos mais velhos de forma acelerada.
3. A defesa da iniciativa
privada, como reação ao crescimento dos movimentos
socialistas ou socializantes do pós-guerra, produziu uma
conscientização da necessidade de melhoria da qualidade
da gestão como forma mais adequada de posicionamento do que
a simples promoção de slogans.
4. As grandes sociedades,
sobretudo as multinacionais, iniciaram um processo de descentralização
de operações. Nessa situação, impunha-se
uma melhor e mais uniforme preparação dos dirigentes
para assegurar a integração das atividades.
5. Finalmente, não
se pode esquecer a importância das verbas do Plano Marshall,
que contribuíram para que um grande número de missões
de estudos empresariais fossem aos EUA, assim como proporcionaram
condições para a instalação e o crescimento
das atividades da Agência Européia de Produtividade
e dos Centros Nacionais de Produtividade. Tais instituições
são apontadas como importantes centros divulgadores e sensibilizadores
dos industriais para questões relacionadas com a preparação
de quadros.
É
de se notar, no entanto, que a concepção de base da
ação de aperfeiçoamento destes centros patrocinados
pela indústria era a de que seriam instrumentos de troca
e de transferência de experiências entre dirigentes.
As
Universidades, por seu turno, na época, ainda não
haviam percebido a oportunidade de se engajar num ensino voltado
para o atendimento das necessidades das empresas. Pelo contrário,
algumas dentre elas viam com alguma dose de preconceito este engajamento.
Não se havia instalado o espirito do "estension work"
norte-americano nas instituições de ensino européias.
Um
nome que se destaca neste momento é o de Gast Berger, diretor-geral
do ensino superior, na França. Berger tinha a opinião
de que o chefe de empresa deveria ser um filósofo em ação
e, desta forma, sua preparação não poderia
limitar-se às simples trocas de experiências, mas também
a compreensão da evolução econômica,
social e cultural do meio ambiente, como ainda o bom embasamento
metodológico.
Dentro
dessa perspectiva, foram criados os institutos de preparação
para administradores de empresas junto às principais Universidades
francesas. Os objetivos a atingir, com estes institutos, eram os
de oferecer aos diplomados por outras faculdades um ano de estudos
integradores para uma visão de administração
de empresas e, também, de oferecer cicios de aperfeiçoamento
para os dirigentes em exercício.
O
impacto positivo desta iniciativa fez-se notar desde logo. Na Grã-Bretanha,
na Espanha, na Suécia e na Bélgica, o modelo passou
a ser utilizado, igualmente.
As
dificuldades de sua implantação, porém, também
não tardaram a aparecer. Embora houvesse bons economistas,
sociólogos, psicólogos, juristas e matemáticos
disponíveis nas boas escolas, não se podia formar,
prontamente, um quadro de professores pesquisadores dispostos e
preparados especificamente para as tarefes que a realidade complexa
das empresas impunha - tarefas teis como uma aproximação
interdisciplinar dos enfoques de estudo, um forte preparo para a
pesquisa empírica e capacitação para utilizar
métodos pedagógicos ativos com público adulto.
Dentro
desse panorama, que marca os anos que vão de 1955 a 1965,
uma promoção destacou-se pela sua originalidade e
eficácia. A Fundação Indústria Universidade,
imaginada em 1955, na Bélgica, e instalada no ano seguinte,
proporcionou uma nova modalidade de associação, ou
seja, a dos poderes públicos, da indústria e da Universidade,
para promover uma mudança dentro da instituição
universitária, de modo a garantir um continuo aperfeiçoamento
do ensino e da pesquisa voltados para a formação de
quadros superiores na empresa. Em vez de criar um novo centro, a
Fundação encarregou-se de buscar fundos junto às
indústrias, que passaram a ser investidos no recrutamento
de pessoal cientifico com experiência empresarial e com capacidade
para galgar simultaneamente os escalões da carreira universitária,
dentro das normas existentes. Conjugado a isso, há todo um
apoio institucional do governo, não só abrindo suas
Universidades a essa experiência, como servindo de elo de
ligação com organismos internacionais, através
dos órgãos ministeriais.
A
experiência pioneira não demorou a ser tomada como
exemplo. No inicio dos anos 60, de fato, várias governos
nacionais deram-se conta da importância da qualidade da gestão
como um dado significativo no desenvolvimento econômico e
dispuseram-se a contribuir financeiramente para a criação
de entidades de mesmo tipo.
Foi
com esse espirito que se criaram, na Suécia, a "Stockholm
School of Economics" e o "Centro de Aperfeiçoamento
de Ystaholm", financiados pelo patronato sueco; na "Noruega,
o Norwegian Council for Management" reuniu os estabelecimentos
de ensino, os empregadores e os poderes públicos, de uma
forma muito próxima à da Fundação Belga.
Na Grã-Bretanha, criaram-se, de um lado, como resposta a
um apelo de doação de fundos por parte das empresas
(que seriam complementados até o dobro com verbas governamentais),
duas business schools inspiradas diretamente no modelo norte-americano;
de outro, a Foundation for Management Education, responsável
pela gestão dos fundos recolhidos, encarregou outros organismos
existentes, como a National Economic Development Organization (Nedo),
o Social Science Research Coucil e o British Institute of Management
(BIM), dos estudos e pesquisas que, em outros paises, eram diretamente
realizados por organismos de politica governamental.
Por
fim, cabe destacar a entidade criada na França - a Fondation
Nationale pour Enseignement de la Gestion des Entreprises. Essa
instituição, reconhecidamente, foi determinante na
evolução do ensino de gestão francês.
Entre suas atividades podem ser destacadas a ajuda à pesquisa,
à renovação de material pedagógico,
à preparação dos formandos e ao estabelecimento
de convênios para intercâmbio em nível internacional,
além da manutenção de revistas periódicas
de alto nível e da ajuda para edição de uma
série de outras publicações de outros centros.
Com
essa reconstituição têm-se as linhas gerais
do ensino de gestão, tal como evoluiu na França, Bélgica,
Grã-Bretanha e Suécia, e que foi seguido mais ou menos
de perto pela Espanha e pelos demais países escandinavos.
Holanda, Alemanha e Áustria seguem uma história própria,
em paralelo ao que acontece nos países citados, assim como
a Itália.
2.3. O Ensino de Administração no Brasil
Os cursos de administração no Brasil têm uma
história muito curta, principalmente se comparamos com os
EUA, onde os primeiros cursos na área se iniciaram no final
do século passado, com a criação da Wharton
School, em 1881. Em 1952, ano em que se iniciava o ensino de administração
no Brasil, os EUA já formavam em torno de 50 mil bacharéis,
4 mil mestres e 100 doutores, por ano, em administração
(Castro, 1981).
Couvre
(1982) diz que a evolução de tais cursos se apresenta
como uma faceta do desenvolvimento do espírito modernizante.
É neste sentido, isto é, na mudança e desenvolvimento
da formação social brasileira, que devemos buscar
as condições e as motivações para a
criação desses cursos. Para a autora, tais motivações
estão relacionadas com o caráter de especialização
e uso crescente da técnica, tornando imprescindível
a necessidade de profissionais para as diferentes funções
de controlar, analisar e planejar as atividades empresariais.
Segundo
Martins (1989), o contexto para a formação do administrador
no Brasil começou a ganhar contornos mais claros na década
de quarenta. A partir desse período, acentua-se a necessidade
de mão-de-obra qualificada e, conseqüentemente, a profissionalização
do Ensino de Administração. O autor afirma que "o
desenvolvimento de uma sociedade, até então, basicamente
agrária, que passava gradativamente a ter seu pólo
dinâmico na industrialização, colocou como problema
a formação de pessoal especializado para analisar
e planificar as mudanças econômicas que estavam ocorrendo,
assim como incentivar a criação de centros de investigação
vinculados à análise de temas econômicos e administrativos".
Segundo
esta visão, tratava-se de formar, a partir do sistema escolar,
um administrador profissional, apto para atender ao processo de
industrialização. Tal processo foi se desenvolvendo
de forma gradativa, desde a década de 30. Porém, ficou
acentuado no momento da regulamentação da profissão,
ocorrida na metade dos anos sessenta, através da Lei n°
4.769, de 09 de setembro de 1965. Após
esta lei, o acesso ao mercado profissional seria privativo dos portadores
de títulos expedidos pelo sistema universitário.
Portanto,
tal ensino veio privilegiar a participação das grandes
unidades produtivas, que passaram a constituir um elemento fundamental
na economia do país, principalmente a partir de 1964.
Para
Martins (1989), a grande preocupação com assuntos
econômicos tem seu marco em 1943. Neste ano, realizou-se,
no Rio de Janeiro, o primeiro Congresso Brasileiro de Economia,
onde se manifestava grande interesse pela industrialização
do país, postulando-se iniciativas concretas por parte do
Estado para motivar a pesquisa em assuntos econômicos. Porém,
tais estudos vinham sendo realizados basicamente nos cursos de Direito
na disciplina de economia, vista como "formação
geral".
Somente
em 1945, surgiram os primeiros resultados quanto à implantação
desse ensino. Neste ano, Gustavo Capanema, Ministro da Educação
e Saúde, encaminhou à Presidência da República
um documento que propunha a criação de dois cursos
universitários: o de Ciências Contábeis e Ciências
Econômicas. O documento afirmava que as atividades de direção
e orientação, tanto nos negócios públicos
como empresariais, atingiram um nível de maior complexidade,
exigindo de seus administradores e técnicos conhecimentos
especializados. Isto permitiu que os cursos de economia passassem
a ter um caráter de especialização, não
mais de natureza genérica, como anteriormente.
A criação
desses cursos assumiu um papel relevante, uma vez que passou a ampliar
a organização escolar do país que, até
então, se constituía apenas de engenheiros, médicos
e advogados.
Neste
sentido, é significativo considerar a importância do
Manifesto dos "Pioneiros da Educação Nova"
quando, ainda em 1932, abordavam a necessidade de outros cursos
universitários, além dos já mencionados acima.
Couvre
(1982) vem confirmar o pensamento dos autores já referidos,
afirmando que o ensino de administração está
relacionado ao processo de desenvolvimento do país. Salienta
que sua criação intensificou-se, sobretudo, após
a década de sessenta, com a expansão do ensino superior,
no qual o ensino de administração está inserido.
Segundo
a autora, este processo de desenvolvimento foi marcado por dois
momentos históricos distintos. O primeiro, pelos governos
de Getúlio Vargas, representativo do projeto "autônomo",
de caráter nacionalista. O segundo, pelo governo de Juscelino
Kubitschek, evidenciado pelo projeto de desenvolvimento associado,
caracterizado pelo tipo de abertura econômica de caráter
internacionalista. Este último apresentou-se como um ensaio
do modelo de desenvolvimento adotado após 1964. Neste período,
o processo de industrialização se acentuou, sobretudo
devido à importação de tecnologia norte-americana.
O surto
de ensino superior, e em especial o de administração,
é fruto da relação que existe, de forma orgânica,
entre esta expansão e o tipo de desenvolvimento econômico
adotado após 1964, calcado na tendência para a grande
empresa. Neste contexto, tais empresas, equipadas com tecnologia
complexa, com um crescente grau de burocratização,
passam a requerer mão-de-obra de nível superior para
lidar com esta realidade.
Para
Martins (1989), o surgimento da Fundação Getúlio
Vargas (FGV) e a criação da Faculdade de Economia
e Administração da Universidade de São Paulo
(USP) marcaram o ensino e a pesquisa de temas econômicos e
administrativos no Brasil, contribuindo para o processo de desenvolvimento
econômico do país.
Tais
instituições ocuparam uma posição dominante
no campo das instituições de ensino de administração,
assim como de referência do posterior desenvolvimento desses
cursos.
É
importante considerar que a idéia dos criadores destas instituições
era de criar um novo tipo de intelectual, dotado de uma formação
técnica, capaz de revestir suas ações de conhecimentos
especializados como uma estratégia indispensável ao
prosseguimento das transformações econômicas
iniciadas em meados dos anos trinta.
Segundo
Martins (1989), tratava-se de formar, a partir do sistema escolar,
o "administrador profissional". Segundo o autor, este
proceso ficaria acentuado no momento da regulamentação
da profissão, ocorrida na metade dos anos sessenta - 1965
- quando o acesso ao mercado profissional seria privativo dos portadores
de títulos expedidos pelo sistema universitário.
A Fundação
Getúlio Vargas (FGV) representa a primeira e mais importante
instituição que desenvolveu o ensino de administração.
Sua origem remonta à criação do DASP, em 1938.
Este
Órgão tinha como finalidade estabelecer um padrão
de eficiência no serviço público federal e criar
canais mais democráticos para o recrutamento de Recursos
Humanos para a administração pública, através
de concursos de admissão.
A idéia
da criação da nova Instituição foi bem
acolhida pelo então presidente da República, Getúlio
Vargas, que autorizou o DASP (Departamento de Administração
do Serviço Público) a promover a abertura de uma entidade
voltada ao estudo de princípios e métodos da organização
racional do trabalho, visando à preparação
de pessoal qualificado para a administração pública
e privada. Surge, através do Decreto n° 6.933, a FGV,
próxima do pólo dominante dos campos do poder político
e econômico.
Foi
na Fundação Getúlio Vargas que surgiram os
primeiros institutos de investigação sobre assuntos
econômicos do país, com propósito de fornecer
resultados para as atividades dos setores estatal e privado.
Segundo
Martins (1989), a Fundação Getúlio Vargas tem
apresentado um vínculo entre seus organizadores e o ensino
universitário norte-americano, de onde proveio a inspiração
para estruturá-la em termos de fundação.
A criação
da FGV ocorreu num momento em que o ensino superior brasileiro desloca-se
de uma tendência européia para uma tendência
norte-americana. Isto é evidente, uma vez que a FGV tomou
como referência os cursos daquele país.
Segundo
o autor, o objetivo da Fundação era formar especialistas
para atender ao setor produtivo e para tal inspirou-se em experiências
norte-americanas. Em 1948, representantes desta Instituição
visitaram vinte e cinco Universidades americanas que mantinham cursos
de administração pública, com o intuito de
conhecer diferentes formas de organização. Isto favoreceu
a realização de encontros entre representantes da
Fundação Getúlio Vargas e professores norte-americanos
quanto à criação de uma escola, visando ao
treinamento de especialistas em administração pública.
Fruto
destas relações, em 1952, tivemos a criação
da Escola Brasileira de Administração Pública
(EBAP), pela Fundação Getúlio Vargas, com o
apoio da ONU e da UNESCO para a manutenção inicial.
O convênio com tais organismos internacionais previa a manutenção
de professores estrangeiros na escola e bolsas de estudo para o
aperfeiçoamento no exterior dos futuros docentes.
Martins (1989) afirma que, com a criação da EBAP no
Rio de Janeiro, a Fundação Getúlio Vargas preocupou-se
com a criação de uma escola destinada especificamente
à preparação de administradores de empresas,
vinculada ao mundo empresarial, com o objetivo de formar especialistas
em técnicas modernas de administração empresarial.
Esta
situação permitiu, em 1954, a criação
da Escola de Administração de Empresas de São
Paulo (EAESP). É importante considerar que a FGV escolheu
esta cidade por ser considerada a capital econômica do país,
"coração e cérebro da iniciativa privada",
com o intuito de atender às expectativas do empresariado.
Para a implantação de tal escola, a Fundação
Getúlio Vargas buscou apoio do governo federal, do Estado
de São Paulo e da iniciativa privada.
Para
iniciar as atividades nesta nova Instituição, a Fundação
Getúlio Vargas firmou um acordo com a USAID (Desenvolvimento
Internacional do Governo dos Estados Unidos). Neste convênio,
o governo norte-americano se comprometia a manter junto a esta escola
uma missão universitária de especialistas em administração
de empresas, recrutada junto à Universidade Estadual de Michigan.
Por outro lado, a Fundação Getúlio Vargas enviaria
docentes para estudos de pós-graduação nos
Estados Unidos, com o intuito de preencher os quadros do corpo docente
da EAESP. Tal convênio revela a influência do ensino
de administração norte-americano na realidade brasileira,
evidenciado, sobretudo, através dos currículos e bibliografias.
Segundo
Martins (1989), a missão universitária norte-americana
atuou nesta instituição até 1965, fornecendo
uma forte estrutura acadêmica, e permitindo-lhe ocupar uma
posição dominante no funcionamento dos cursos de administração
na sociedade brasileira.
Para
Schuch Júnior (1978), com a criação da Escola
de Administração de Empresa de São Paulo (EAESP),
surgiu o primeiro currículo especializado em Administração,
tendo influenciado, de alguma forma, o movimento posterior nas instituições
de ensino superior do país.
Segundo
Martins (1989), a partir da década de sessenta, a Fundação
Getúlio Vargas passou a criar cursos de pós-graduação
na área de Economia, Administração Pública
e de Empresas. Em meados dessa década, iniciou a oferta regular
dos cursos de mestrado.
Com
a criação dos cursos de mestrado, a Fundação
Getúlio Vargas passou a ser o centro formador de professores
para outras instituições de ensino, no momento em
que ocorreu uma enorme expansão dos cursos de administração.
Fruto dessa expansão, na metade da década de setenta,
passou a ministrar um programa de doutorado nesta área.
Outra
Instituição de muita relevância para o desenvolvimento
do ensino de administração tem sido a Universidade
de São Paulo (USP). Surgiu da articulação de
políticos, intelectuais e jornalistas, vinculados ao jornal
de São Paulo.
Para
Martins (1989), foi em 1934 que surgiu a Universidade de São
Paulo, através da aglutinação de faculdades
já existentes e da abertura de novos centros de ensino.
Em 1946,
é criada a Faculdade de Economia e Administração
- FEA - que tinha por objetivo formar funcionários para os
grandes estabelecimentos de administração pública
e privada.
O fator
que veio repercutir na criação da FEA foi principalmente
o grande surto de industrialização, quando surgiram
empresas movimentando altos capitais que exigiram, para sua direção,
técnicas altamente especializadas.
Assim
como a Fundação Getúlio Vargas, através
da EBAP e da EAESP, também a Faculdade de Economia e Administração
foi criada com um objetivo prático e bem definido, isto é,
atender, através da preparação de recursos
humanos, às demandas oriundas do acelerado crescimento econômico.
Martins
(1989) afirma que foram os interesses públicos e privados
que influenciaram na criação da FEA. Segundo o autor,
o objetivo era de prestar colaboração às empresas
privadas e a todos os órgãos do serviço público.
Desde
o seu início, procurou criar relações principalmente
com a administração pública local. Estabeleceu
contato com a Federação das Indústrias, com
a Associação Comercial do Estado e com a iniciativa
privada. Tais relações permitiram que o quadro de
professores acumulasse, além de suas funções
didáticas, um trabalho de assessoria junto a organismos privados
e à administração estatal.
No interior
da FEA, foram criados institutos que desempenharam um papel estratégico
para sua articulação com o campo do poder econômico,
na medida em que passou a prestar serviços a organismos públicos
e privados.
É
importante mencionar o Instituto de Administração,
criado em 1946, que, juntamente com a FEA, foi, até 1966,
muito importante na orientação de projetos e pesquisas
para a administração pública e estatal.
Quanto
à sua origem, a Faculdade de Economia e Administração,
nos seus primeiros vinte anos, possuía apenas os cursos de
Ciências Econômicas e Ciências Contábeis,
deixando de oferecer os cursos de administração. Mesmo
assim, ambos os cursos evidenciavam um conjunto de disciplinas que
tratavam de questões administrativas. O Instituto de Administração
tinha por objetivo realizar pesquisas na área. Esta orientação
permitiu o surgimento da Revista de Administração,
através do Departamento de Serviço Público.
Somente
no início dos anos sessenta, a Faculdade de Economia e Administração
sofreu algumas alterações estruturais, dando origem
ao Departamento de Administração, composto por disciplinas
integradas aos cursos de Ciências Econômicas e Ciências
Contábeis. Segundo Martins (l989), nesta época, surgiram
os primeiros cursos de pós-graduação nesta
Faculdade, inclusive em Administração, embora ainda
não existisse o curso de graduação. Isto só
veio a ocorrer em 1963, quando passou a oferecer os cursos de Administração
de Empresas e de Administração Pública.
É
importante considerar que, enquanto a criação da EBAP
e EAESP correspondeu a um momento histórico, em que o segundo
Governo de Vargas procurou conduzir uma política econômica,
baseada na criação de empresas estatais e empresas
privadas nacionais, retomando ao tema do nacionalismo, a criação
do curso de Administração da FEA coincidiu com um
momento em que a grande empresa estrangeira havia se consolidado
no mercado interno nacional.
A partir
de 1972, o Instituto de Administração foi reestruturado,
não mais ligado a um grupo de disciplinas, mas ao Departamento
de Administração. Seu principal objetivo tem sido
prestar serviços a entidades públicas e privadas,
realizando pesquisas e treinamento de pessoal. Segundo Martins (1989),
os serviços prestados geraram um fundo de pesquisa, transformando-o
num órgão captador de recursos no interior da FEA.
Observa-se
também que a criação e evolução
dos cursos de administração na sociedade brasileira,
no seu primeiro momento, foram feitas no interior de Instituições
Universitárias, fazendo parte de um complexo de ensino e
pesquisa. Essas escolas transformaram-se em pólos de referência
para a organização e funcionamento deste campo.
No
final dos anos sessenta, a evolução dos cursos de
administração ocorreria, não mais vinculada
a Instituições Universitárias, mas às
Faculdades isoladas que proliferaram dentro do processo de expansão
privatizada na sociedade brasileira.
Esta
expansão, segundo Martins (1989), também está
relacionada às transformações ocorridas no
plano econômico.
A partir
da década de sessenta, o estilo de desenvolvimento privilegiou
as grandes unidades produtivas na economia do país. Ocorreu
o crescimento acentuado das grandes empresas, principalmente estrangeiras
e estatais, permitindo a utilização crescente da técnica.
Isso implicou diretamente na necessidade de profissionais com treinamento
específico para executar diferentes funções
internas das organizações. Em face desta situação,
as grandes empresas passaram a adotar a profissionalização
de seus quadros, tendo em vista o tamanho e complexidade das estruturas.
Isso veio a constituir um espaço potencial para a utilização
dos administradores que passaram pelo sistema escolar.
Com
as mudanças econômicas, um novo acontecimento acentuou
a tendência à profissionalização do administrador.
A regulamentação dessa atividade ocorreu na metade
da década de sessenta, pela Lei n° 4.769 de 09 de setembro
de 1965. A presente Lei, no seu artigo 3, afirma que o exercício
da profissão de Técnico em Administração
é privativo dos Bacharéis em Administração
Pública ou de Empresa, diplomados no Brasil, em cursos regulares
de ensino superior, oficial, oficializado ou reconhecido, cujo currículo
seja fixado pelo Conselho Federal de Educação, nos
termos da Lei n° 4.024, de 20 de dezembro de 1961, que fixa
as Diretrizes e Bases da Educação no Brasil. Isso
veio ampliar um vasto campo de trabalho para a profissão
de administrador.
Segundo
Schuch Júnior (1978), no ano seguinte à regulamentação
da profissão, através do parecer n° 307/66, aprovado
em 08 de julho de 1966, o Conselho Federal de Educação
fixou o primeiro currículo mínimo do curso de administração.
Ficavam, assim, institucionalizadas, no Brasil, a profissão
e a Formação de Técnico em Administração.
As
diretrizes do parecer se inspiraram na análise das condições
reais da Administração do país e nos postulados
que emanavam da lei e da doutrina fixada na experiência nacional
e internacional.
Tal
currículo procurou agrupar matérias: de cultura geral,
objetivando o conhecimento sistemático dos fatos e condições
institucionais em que se insere o fenômeno administrativo;
as instrumentais, oferecendo os modelos e técnicas, de natureza
conceitual ou operacional; e as de formação profissional.
Com
a liberdade dada pelo currículo, as escolas puderam ministrar
as matérias do currículo mínimo com diferentes
dosagens de tempo e de acento quanto aos objetivos, assim como organizar
cursos ou seminários de aplicação mais restrita
ou especializada.
Tem-se
de superar certa tendência atomística que decompõe
o currículo em todos os elementos que poderá abranger,
adicionados, depois, como matérias autônomas: e a tendência
prevalece ao longo da tradição educacional, a que
se deve a excessiva densidade dos planos de estudo. Dentro dessa
orientação, mais ou menos mecânica, torna-se
impraticável a redução, salvo por processo
igualmente mecânico que elimina, mutilando.
De
acordo com o parecer nº 307/66, o currículo mínimo
do curso de Administração, que habilita ao exercício
da profissão de Técnico de Administração,
foi constituído das seguintes matérias:
- Matemática;
- Estatística;
- Contabilidade;
- Teoria Econômica;
- Economia Brasileira;
- Psicologia Aplicada
à Administração;
- Sociologia Aplicada
à Administração;
- Instituições
de Direito Público e Privado (incluindo Noções
de Ética Administrativa);
- Legislação
Social;
- Legislação
Tributária;
- Teoria Geral da
Administração;
- Administração
Financeira e Orçamento;
- Administração
de Pessoal;
- Administração
de Material.
Além
desse elenco de matérias, tornou-se obrigatório o
Direito Administrativo, ou Administração de Produção
e Administração de Vendas, segundo a opção
do aluno. Ainda, para obterem o diploma, os alunos tinham que realizar
um estágio supervisionado de seis meses.
A
partir dessa regulamentação, procurou-se instituir
organismos que controlassem o exercício da profissão.
Criavam-se os Conselhos Regionais.
Segundo
Martins (1989), a função de tais organismos era fiscalizar
o desempenho da profissão e expedir as carteiras profissionais.
Só poderiam exercer a profissão aqueles registrados
nos Conselhos Regionais de Administração - CRAs. Este
organismo passaria a ter um forte controle sobre as condições
de acesso à profissão.
Isso
nos mostra que a regulamentação da profissão
de Administrador, ao institucionalizar que o exercício seria
privativo daqueles que possuíam o título de bacharel
em Administração, contribuiu de forma acentuada para
a expansão desses cursos.
Segundo
Souza (1980), outro fator que contribuiu significativamente neste
processo de profissionalização foram as leis da Reforma
do Ensino Superior. Estas leis estabeleceram claramente níveis
de ensino tipicamente voltados às necessidades empresariais.
Assim como permitiram o surgimento de Instituições
Privadas para que, juntamente com as Universidades, pudessem corresponder
à grande demanda de ensino superior desde a década
de cinqüenta.
A
Lei nº 5.540, nos seus artigos 18 e 23, afirma que "os
cursos profissionais poderão, segundo a área abrangida,
apresentar modalidades diferentes quanto ao número e à
duração, a fim de corresponder às profissões
reguladas em Lei. As Universidades e os estabelecimentos isolados
poderão organizar outros cursos para atender às exigências
de sua programação específica e fazer face
à peculiaridade do mercado de trabalho regional".
Segundo
Castro (1981), tais acontecimentos repercutiram significativamente,
uma vez que, num intervalo de trinta anos, o ensino de administração
alcançou uma dimensão significativa na sociedade brasileira.
Contando apenas com dois cursos em 1954, a EBAP e a EAESP, ambos
mantidos pela Fundação Getúlio Vargas, passou-se
para 31, em 1967, saltando para 177 cursos no ano de 1973, para
244 em 1978 e para 354 em 1995.
Esta
relação entre prática profissional e a obtenção
de títulos específicos impulsionou aqueles que aspiravam
a ter acesso a funções econômico-administrativas,
em órgãos públicos ou privados, a ingressar
em centros de ensino que oferecessem tal habilitação.
Assim,
também aqueles que já desenvolviam tais atividades
no mercado profissional foram impulsionados a buscar o título
universitário para obter promoções.
Neste
contexto, um dos aspectos que merecem ser destacados na expansão
dos cursos de Administração é a considerável
participação da rede privada neste processo, ocorrida
a partir do final dos anos sessenta. No início da década
de oitenta, o sistema particular era responsável por aproximadamente
79% dos alunos, ficando o sistema público com o restante.
O mesmo ocorreu nas demais áreas de conhecimento, onde a
distribuição era de 61% para a rede privada.
Para
Martins (1989), outro fator importante que envolve o ensino privado,
são os estabelecimentos isolados, isto é, instituições
não-universitárias, que absorvem 63% de todos os alunos
de administração do país. Segundo o autor,
se acrescentarmos a este número os estudantes dos estabelecimentos
isolados, municipais e estaduais, pode-se verificar que no início
da década de oitenta, cerca de 70% dos alunos de graduação
em administração encontram-se neste tipo de Instituição.
Ao
contrário das primeiras escolas, que nasceram próximas
aos campos do Poder econômico e político, as novas
escolas, de maneira geral, nasceram eqüidistantes das expectativas
e dos grupos que ocupavam posições dominantes naqueles
campos. O aparecimento delas partiu da iniciativa de atores que
atuavam no setor educacional, aproveitando-se do momento em que
o Estado pós-64 abriu um grande espaço para a iniciativa
privada, visando a atender à crescente demanda de acesso
ao ensino de 3º grau.
Martins
(1989) diz que a abertura dos cursos apresentava-se vantajosa, uma
vez que poderiam ser estruturadas sem muitos dispêndios financeiros.
Tais cursos buscavam uma certa rentabilidade acadêmica, procurando
adaptar suas práticas acadêmicas aos grandes centros
que desfrutam de maior legitimidade. Observa-se uma relação
assimétrica, em que as primeiras escolas de administração
têm, enquanto tendência, que produzir para o setor público
e privado uma elite administrativa vinculada aos pólos dominantes
dos campos do poder político e econômico. Enquanto
que, por outro lado, as novas instituições têm
produzido os quadros médios para as burocracias públicas
e privadas que, em função de sua complexidade, necessitam
de pessoal para suas rotinas, isto é, um pessoal treinado
para questões econômico-administrativas.
Outro
fator, também fruto da expansão dos cursos de administração
na sociedade brasileira, é a concentração desse
ensino em determinadas regiões. No início da década
de oitenta, as regiões sudeste e Sul resondiam por 80.722
alunos e 81% de todo o ensino de administração do
país. Estes dados indicam uma forte prevalência das
regiões de maior concentração e diferenciação
produtiva, onde se localizam as maiores oportunidades em termos
de mercado de trabalho para esta profissão.
Quanto
a influência norte-americana é um fato notório,
uma vez que todo o sistema de ensino brasileiro, a partir da década
de sessenta, adotou aquele sistema. Porém, é lamentável
que não se tenha mantido atualizado e compatível com
a realidade.
Souza
(1980) afirma que o que ocorre no Brasil, como reflexo da fragilidade
dos cursos de Administração, é que somente
quando a demanda se concretiza, o sistema educacional passa a providenciar
a formação de mão-de-obra. A conseqüência
dessa realidade leva as empresas que demandam esse tipo de profissional
a importar ou treinar profissionais por falta de pessoal qualificado.
Trata-se de um problema sério para os quais as Universidades
devem buscar soluções com intuito de aperfeiçoar
tal ensino.
Segundo
Silva (1971), as Universidades mais respeitadas nesse campo de conhecimento
procuram formar Administradores para empresas do futuro e não
para as empresas de hoje ou ontem.
Por
outro lado, Siqueira (1987) afirma que a preocupação
não deve estar apenas voltada para a preparação
de profissionais para as empresas privadas. Segundo ele, no momento
em que o Brasil se encaminha para uma sociedade democrática,
parece oportuno defender a formação de um profissional
capaz de atuar em outras formas organizacionais, tais como: associações
de bairros, cooperativas, pequenas empresas e outros campos novos
à espera de formas organizacionais inovadoras, além
do seu tradicional campo de empresas.
Assim, com a preocupação de melhorar a qualidade dos
cursos de Administração, várias instituições
somaram esforços na mesma direção. A ANGRAD
- Associação Nacional dos Cursos de Graduação
em Administração e o CFA - Conselho Federal de Administração
trabalharam conjuntamente para aprovação do novo currículo
mínimo de Administração, aprovado em 1993.
O
currículo deve ser entendido dentro de sua dimensão
mais ampla de desempenhos esperados, de desejado relacionamento
com o meio a que serve, suas instituições, organizações,
professores, alunos, empresas, envolvendo-se com sua ideologia e
filosofia de educação.
No
caso específico de Administração, deve responder
não somente às necessidades do mercado de trabalho,
mas também mudar seu enfoque de solucionador de problemas,
reprodutor das forças produtivas e das relações
sociais, para promotor de novas relações produtivas
e sociais.
Constitui-se
em agente transformador capaz de ajustar-se com rapidez aos avanços
das ciências e da tecnologia no estabelecimento de uma nova
ordem.
A
síntese de sua metodologia deve implicar numa integração
dos conhecimentos parciais, num todo orgânico e lógico,
podendo dar origem a um novo conhecimento ou novas formas de ação.
O
impacto da tecnologia no desenvolvimento, por exemplo, está
a requerer uma permanente atualização daquelas ações
educacionais, ante as transformações que se sucedem,
principalmente no nível das técnicas, das ciências,
da organização e do controle do processo de trabalho.
É
exatamente dentro desse quadro de considerações que
a escola tem que construir suas propostas curriculares com elevado
comprometimento metodológico com o permanente repensar do
seu quotidiano.
É
imperioso que se consolide na ação educativa a convicção
de que precisamos educar para o desconhecido, ante um mundo de complexidade
crescente que se transforma rapidamente.
Antes
que treinar e adestrar alunos, é indispensável iniciá-los
na ultrapassagem das fronteiras do já conhecido.
É
preciso perder o culto idolátrico de modelos consagrados
de ensino, visto que não existe um caminho único para
objetivos diferentes, e o meio e as demandas daqui quase que necessariamente
não serão idênticos aos de acolá.
Tudo
isto está a indicar uma enérgica mudança de
atitude ante a posição convencional de tratamento
do chamado "currículo mínimo"...
As
Instituições de Ensino devem convencer-se de que o
currículo é apenas um instrumento a serviço
da aprendizagem e não um fim em si mesmo.
Sua
concepção há de ser a de um conjunto solidário
de matérias suficientemente nucleares para atenderem, na
sua fecundidade e segundo uma metodologia dinâmica, aos objetivos
gerais e específicos de determinado curso.
O
Currículo Mínimo é a chamada matéria-prima
a ser convenientemente trabalhada no currículo pleno de cada
escola.
Toda
liberdade criadora em torno daquelas matérias, entendidas
como fontes exploratórias, constitui o princípio mais
importante nessa mudança de atitude e implica ter no currículo
mínimo um parceiro indicativo e não uma "norma"
limitativa e inibidora.
Significa
dizer que o currículo mínimo constitui-se uma fonte
para a escola promover as mais diversas explorações,
combinando livremente os seus elementos sob a forma de atividades
ou disciplinas, no jogo situações concretas x conhecimentos.
Com
a liberdade que sempre deteve e raramente exercitou, a escola pode
ministrar as matérias do currículo com diferentes
dosagens em função de seus objetivos, assim como,
implicitamente, associados a elas.
Nesse
particular, tem sido freqüentemente a solicitação
de se incluirem, no currículo mínimo, questões
que constituem muito mais temas às vezes até bastante
oportunos, mas que não chegam a caracterizar matérias,
no sentido mais orgânico que se empresta ao termo.
Cumpre,
portanto, à escola, no exercício de competência
que é sua, construir com esses elementos novos pontos de
enfoque, ou mesmo novas disciplinas. O problema essencial não
é criar uma arquitetura curricular com uma lista de tópicos
a serem atingidos, numa visão empobrecida, negativa, que,
usualmente, tem limitado e inibido a autonomia e a criatividade
da escola na formulação e implementação
de sua proposta pedagógica.
O
fundamental é a utilização, na construção
do currículo pleno, de uma metodologia que utilize o currículo
mínimo como um instrumento que propicie desempenhos esperados
e não como proposta acabada em si mesma.
Uma
metodologia que enseje, no caso da Administração,
por exemplo, a cada escola conferir organicidade ao estudo de todas
as variáveis que interferem no fato administrativo, sejam
elas políticas, sociais ou econômicas, em função
de seus objetivos, sua história e herança e em função
das necessidades de sua clientela. Uma metodologia que enfatize
uma sólida formação intelectual, que estimule
o senso crítico e a mente analítica, pois, se há
uma lógica e uma metodologia quase que imanente para as matérias
tradicionais de um curso de Administração, o mesmo
não se pode dizer para os demais aspectos hoje necessariamente
envolvidos com a evolução da Administração.
Uma
estrutura curricular, segundo este senso de organização,
envolve um trabalho metodológico das matérias de cultura
geral, instrumentais e as de formação profissional,
despojado de fronteiras rígidas e conseqüente compartimentação
estanque.
A
incorporação de algumas características intelectuais
indispensáveis a um moderno curso de Administração,
tais como: comunicação interpessoal, ética
profissional, capacidade de adaptação, são
exigências dos dias de hoje.
Buscar,
portanto, um currículo que atenda às necessidades
do meio social e eventualmente aos projetos deste ou aquele segmento
da sociedade significa imprimir a esse currículo, antes que
uma arquitetura monolítica, uma construção
que, sendo organicamente articulada, também seja permeável
às demandas de entradas e reentradas, tanto de clientela,
como de conteúdos que venham ao encontro das necessidades
de um país em processo de definição como o
nosso, ainda em busca de modelos institucionais que estejam mais
próximos dos fatos, e por isso mesmo, mais aptos a fomentar-lhe
a força criadora.
Tendo
presente as considerações resultantes dos vários
encontros promovidos pela ANGRAD e pelo CFA, chegou-se ao novo currículo
mínimo do Curso de Administração. A Resolução
nº 2, de 04 de outubro de 1993, "Fixa os mínimos
de conteúdos e duração do curso de Graduação
em Administração".
"Art. 1º
O currículo mínimo do Curso de Graduação
em Administração, que habilita ao exercício
da profissão de Administrador, será constituído
das seguintes matérias:
»
FORMAÇÃO
BÁSICA E INSTRUMENTAL
- Economia
- Direito
- Matemática
- Estatística
- Contabilidade
- Filosofia
- Psicologia
- Sociologia
- Informática
Total: 720 h/a (24%)

»
FORMAÇÃO
PROFISSIONAL
- Teorias da Administração
- Administração
Mercadológica
- Administração
da Produção
- Administração
de Recursos Humanos
- Administração
Financeira e Orçamentária
- Administração
de Materiais e Patrimoniais
- Administração
de Sistemas de Informação
- Organização,
Sistemas e Métodos
Total: 1.020 h/a
(34%)

»
DISCIPLINAS
ELETIVAS E COMPLEMENTARES
Total: 960 h/a (32%)

»
ESTÁGIO
SUPERVISIONADO
Total: 300 h/a (10%)
Art. 2º - O curso
de Administração será ministrado no tempo útil
de 3.000 horas-aulas, fixando-se para sua integralização
o mínimo de 04 (quatro) e o máximo de 07 (sete) anos
letivos. Aquele limite incluirá o tempo a ser dedicado ao
objetivo de conhecimento da realidade brasileira de que trata o
art. 2ª da Lei 8.663, de 14 de junho de 1993, segundo critérios
fixados pelas instituições. A prática de Educação
Física, também obrigatória, terá carga
horária adicional.
Art. 3º - Além
da habilitação geral prescrita em lei, as instituições
poderão criar habilitações específicas,
mediante intensificação de estudos correspondentes
às matérias fixadas nesta Resolução
e em outras que venham a ser indicadas para serem trabalhadas no
currículo pleno.
Parágrafo único
- a habilitação geral constará do anverso do
diploma e as habilitações específicas, não
mais de duas de cada vez, serão designadas no verso, podendo
assim o diplomado completar estudos para obtenção
de novas habilitações.
Art. 4º - Os
mínimos de conteúdo e duração, fixados
nesta Resolução serão obrigatórios a
partir de 1995, podendo as instituições que tenham
condições para tanto e assim desejarem aplicá-los
a partir de 1994.
Art. 5º - Na
obtenção de graduação em Administração,
por diplomados em outros cursos, caberá às escolas
o estabelecimento de critérios flexíveis de aproveitamento
de estudos obtidos pelo aluno em seu curso anterior, especialmente
quanto aos programas de estudos e respectiva dosagem, obedecidas
as normas legais (Súmula-2/92 CFE).
Parágrafo Único
- A graduação obtida nos termos deste artigo deverá
ser ministrada no tempo útil de 1.350 horas-aula."
Dessa forma, o curso de Administração deve buscar
a construção de uma base técnico-científica
que permita aos alunos desenvolverem um processo de autoquestionamento
e aprendizado, de modo a torná-los capazes de absorver, processar
e se adequar, por si mesmos, às necessidades e aos requerimentos
das organizações do mundo moderno.
De
acordo com essa filosofia, a educação é concebida
como um instrumento que oferece ao indivíduo a oportunidade
de construir a sua própria formação intelectual
e profissional. Nessa linha, o curso caracteriza-se por uma orientação
de permanente estímulo à imaginação
e à criatividade dos alunos, procurando exercitar seu raciocínio
analítico, inspirar sua capacidade de realização
e desenvolver suas habilidades de expressão oral e escrita.
Ainda,
mais do que qualquer época, a gestão eficaz de recursos
representa hoje em dia um grande desafio para a sociedade, uma verdadeira
prioridade nacional. Vivem-se tempos em que a busca de soluções
adequadas para um desenvolvimento equilibrado, nos campos econômico
e social, tem sido alvo de constantes e inadiáveis discussões,
dentro de um ambiente de crescente complexidade e permanente mudança.
Para enfrentar tal desafio, um importante papel é destinado
ao ensino empresarial e às instituições de
ensino superior, sejam elas Universidades ou Faculdades Isoladas.

»
PERSPECTIVAS
DO ENSINO DE ADMINISTRAÇÃO NO BRASIL
Os
anos 90 presenciou mudanças substantivas na dinâmica
do capitalismo internacional, tais como: a mundialização
dos mercados e sua crescente integração; a tendência
à conglomeração das empresas; a mudança
nas formas de concorrência; a cooperação interindustrial,
dentre outras.
Além
disso, a forte segmentação da força de trabalho
ocorre num quadro de desmobilização de movimentos
reivindicatórios e de dificuldades de organização
e sindicalização dos administradores.
Surge,
então, um fenômeno paradoxal: a ampliação
do trabalho precarizado e informal e a emergência de um trabalho
revalorizado. Este último requer do administrador uma multiqualificação
e polivalência em trabalhos que agora são muito mais
intelectuais do que manuais, e a capacidade de diagnóstico,
de solucionar problemas, de intervir no processo de trabalho, auto-organizar-se
e enfrentar situações de constantes mudanças,
além, é claro, de trabalhar em equipe. O administrador
deve ser um generalista e não um especialista.
É
neste contexto que retorna à agenda de discussões
o papel dos Cursos de Administração. A formação
deste Administrador polivalente depende de uma competência
construída a longo prazo que só uma ampla base educacional
proporciona.
Diante
do modelo da especialização flexível e dos
novos conceitos de produção, a divisão técnica
do trabalho se tornou menos evidenciada, o que tornou o trabalho
cada vez mais abstrato, mais intelectualizado, mais autônomo,
coletivo e complexo. O próprio objeto do trabalho se torna
imaterial: informações, signos e linguagens simbólicas.
Com
o avanço tecnológico, as tarefas estão se tornando
indeterminadas pelas possibilidades de usos múltiplos dos
próprios sistemas, e a tomada de decisões passa a
depender da captação de uma multiplicidade de informações
obtidas através das redes informatizadas. Assim, o Administrador,
diante da imprevisibilidade das situações, tem que
fazer escolhas e opções o tempo todo.
Todas
estas características do trabalho nos setores em que vigoram
os novos conceitos de produção tornam questionáveis
noções como qualificação para o posto
de trabalho ou emprego. O trabalho já não pode mais
ser pensado a partir da perspectiva de um determinado posto, mas
de famílias de ocupações que podem e devem
ser consolidadas a partir de um conjunto de competências e
habilidades. Trata-se da qualificação real do Administrador:
o conjunto de competências e habilidades, saberes e conhecimentos,
que provêm de várias instâncias, tais como formação
geral (conhecimento científico), formação profissional
e experiência de trabalho e social. A qualificação
real dos administradores é muito mais difícil de ser
observada e constitui-se muito mais no "saber-ser" do
que no "saber fazer".
O
conjunto de competências que os Cursos de Administração
terão que colocar em ação, por meio da articulação
dos vários saberes oriundos de várias esferas, para
resolver problemas e enfrentar situações de imprevisibilidade,
constituem características desta qualificação
real.

2.4. Referências Bibliográficas e Bibliografia
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Prof. Dr. Rui Otávio Bernardes de Andrade
Presidente do Conselho Federal de Administração
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