:: História da Implantação
do Curso de Administração no Brasil
1. O Ensino da
Administração no Brasil
Historicamente,
o ensino de Administração no Brasil passou por dois
momentos marcados pelo currículos mínimos aprovados
em 1966 e 1993, culminando com a apresentação da proposta
de diretrizes curriculares para os cursos de graduação
em Administração elaboradas pelos autores em 1998,
quando eram membros da Comissão de Especialistas de Ensino
de Administração da SESu/MEC.
1.1 surgimento
e reconhecimento da profissão do Administrador
Os
cursos de Administração no Brasil têm uma história
muito curta, principalmente se comparamos com os EUA, onde os primeiros
cursos na área se iniciaram no final do século XIX,
com a criação da Wharton School, em 1881. Em 1952,
ano em que se iniciava o ensino de Administração no
Brasil, os EUA já formavam em torno de 50 mil bacharéis,
4 mil mestres e cem doutores por ano, em Administração.
A
evolução de tais cursos se apresenta como uma faceta
do desenvolvimento do espírito modernizante. É neste
sentido, isto é, na mudança e desenvolvimento da formação
social brasileira, que devemos buscar as condições
e as motivações para a criação desses
cursos. Para Covre , tais motivações estão
relacionadas com o caráter de especialização
e uso crescente
da técnica, tornando imprescindível a presença
de profissionais para as diferentes funções de controlar,
analisar e planejar as atividades empresariais.
O
contexto para a formação do Administrador no Brasil
começou a ganhar contornos mais claros na década de
quarenta. A partir desse período, acentua-se a necessidade
de mão-de-obra qualificada e, conseqüentemente, da profissionalização
do Ensino de Administração. O autor ressalta a importância
da formação de pessoal especializado para a planificação
de mudanças, assim como da criação de centros
de investigação para dar suporte a questões
econômicas e administrativas, em uma sociedade que passava
de um estágio agrário para a industrialização
.
Segundo
essa visão, tratava-se de formar, a partir do sistema escolar,
um Administrador profissional, apto para atender ao processo de
industrialização. Tal processo desenvolveu-se de forma
gradativa, desde a década de 30, porém, acentuou-se
por ocasião da regulamentação da profissão,
ocorrida na metade dos anos sessenta, através da Lei nº
4.769, de 09 de setembro de 1965. Com essa Lei, o acesso ao mercado
profissional seria privativo dos portadores de títulos expedidos
pelo sistema universitário.
O
Ensino de Administração veio privilegiar a participação
das grandes unidades produtivas, que passaram a constituir um elemento
fundamental na economia do país, principalmente a partir
de 1964.
A
grande preocupação com os assuntos econômicos
teve seu marco em 1943. Naquele ano, realizou-se, no Rio de Janeiro,
o primeiro Congresso Brasileiro de Economia, no qual se manifestou
grande interesse pela industrialização do país,
postulando-se iniciativas concretas por parte do Estado para motivar
a pesquisa em assuntos econômicos. Porém, tais estudos
vinham sendo realizados basicamente nos cursos de Direito na disciplina
de economia, vista como de "formação geral"
.
Somente
em 1945 surgiram os primeiros resultados quanto à implantação
desse ensino. Nesse ano, Gustavo Capanema, Ministro da Educação
e Saúde, encaminhou à Presidência da República
um documento que propunha a criação de dois cursos
universitários: Ciências Contábeis e Ciências
Econômicas. O documento afirmava que as atividades de direção
e orientação, tanto nos negócios públicos
como nos empresariais, haviam atingido um nível de maior
complexidade, exigindo de seus administradores e técnicos
conhecimentos especializados. Isso possibilitou que os cursos de
economia passassem a ter um caráter de especialização,
não mais de natureza genérica, como anteriormente.
A
criação desses cursos assume um papel relevante, por
ampliar a organização escolar do país que,
até então, constituía-se apenas de engenheiros,
médicos e advogados.
Nesse
sentido, é significativo considerar a importância do
Manifesto dos "Pioneiros da Educação Nova"
que, em 1932, abordava a necessidade de outros cursos universitários,
além dos já mencionados .
O
ensino de Administração está relacionado ao
processo de desenvolvimento do país. Esse processo foi marcado
por dois momentos históricos distintos. O primeiro, pelos
governos de Getúlio Vargas, representativos do projeto "autônomo",
de caráter nacionalista. O segundo, pelo governo de Juscelino
Kubitschek, evidenciado pelo projeto de desenvolvimento associado
e caracterizado pelo tipo de abertura econômica de caráter
internacionalista. Este último apresentou-se como um ensaio
do modelo de desenvolvimento adotado após 1964. Nesse período,
o processo de industrialização se acentuou, sobretudo
devido à importação de tecnologia norte-americana.
O surto de ensino superior, e em especial o de Administração,
é fruto da relação que existe, de forma orgânica,
entre essa expansão e o tipo de desenvolvimento econômico
adotado após 1964, calcado na tendência para a grande
empresa. Nesse contexto, tais empresas, equipadas com tecnologia
complexa e com um crescente grau de burocratização,
passam a requerer mão-de-obra de nível superior para
lidar com essa realidade.
O
surgimento da Fundação Getúlio Vargas (FGV)
e a criação da Faculdade de Economia e Administração
da Universidade de São Paulo (USP) marcaram o ensino e a
pesquisa de temas econômicos e administrativos no Brasil,
contribuindo para o processo de desenvolvimento econômico
do país .
Tais
instituições ocuparam uma posição dominante
no campo das instituições de ensino de Administração,
assim como de referência do posterior desenvolvimento desses
cursos.
É
importante considerar que a idéia dos fundadores dessas instituições
era criar um novo tipo de intelectual, dotado de uma formação
técnica capaz de revestir suas ações de conhecimentos
especializadas, como uma estratégia indispensável
ao prosseguimento das transformações econômicas
iniciadas em meados dos anos trinta.
Tratava-se,
para Martins de formar, a partir do sistema escolar, o "administrador
profissional" . Esse processo se intensificaria no momento
da regulamentação da profissão ocorrida na
metade dos anos sessenta (1965), quando o acesso ao mercado profissional
seria restrito aos portadores de títulos universitários.
A
FGV representa a primeira e mais importante instituição
que desenvolveu o ensino de Administração. Sua origem
remonta à criação do Departamento de Administração
do Serviço Público (DASP), em 1938. Esse órgão
tinha como finalidade estabelecer um padrão de eficiência
no serviço público federal e criar canais mais democráticos
para o recrutamento de Recursos Humanos para a administração
pública, por meio de concursos de admissão .
A
idéia da criação da nova Instituição
foi bem acolhida pelo então presidente da República,
Getúlio Vargas, que autorizou o DASP a promover a abertura
de uma entidade voltada ao estudo de princípios e métodos
da organização racional do trabalho, visando a preparação
de pessoal qualificado para a administração pública
e privada. A instituição surgiu por meio do Decreto
nº 6.933, próxima ao pólo dominante dos campos
do poder político e econômico.
Foi
na FGV que surgiram os primeiros institutos de investigação
sobre assuntos econômicos do país, com propósito
de fornecer resultados para as atividades dos setores estatal e
privado.
A
criação da Fundação Getúlio Vargas
ocorreu em um momento em que o ensino superior brasileiro deslocava-se
de uma tendência européia para uma tendência
norte-americana. Isto é evidente, uma vez que a FGV tem apresentado
um vínculo entre seus organizadores e o ensino universitário
norte-americano, de onde proveio a inspiração para
estruturá-la em termos de fundação.
Martins
comenta ainda que o objetivo da Fundação era formar
especialistas para atender ao setor produtivo, tomando-se como inspiração
as experiências norte-americanas. Em 1948, representantes
dessa Instituição visitaram vinte e cinco Universidades
americanas que mantinham cursos de Administração Pública,
com intuito de conhecer diferentes formas de organização.
Isto favoreceu a realização de encontros entre representantes
da FGV e professores norte-americanos visando à criação
de uma escola voltada ao treinamento de especialistas em Administração
Pública .
Como
fruto dessas relações, foi criada, em 1952, a Escola
Brasileira de Administração Pública (EBAP),
pela Fundação Getúlio Vargas, com o apoio da
ONU e da UNESCO para a manutenção inicial. O convênio
com esses organismos internacionais previa a manutenção
de professores estrangeiros na escola e bolsas de estudo para o
aperfeiçoamento dos futuros docentes no exterior.
Com
o surgimento da EBAP no Rio de Janeiro, a FGV preocupou-se em criar
uma escola destinada especificamente à preparação
de Administradores de Empresas, vinculada ao mundo empresarial,
com o objetivo de formar especialistas em técnicas modernas
de administração empresarial .
Essa
situação possibilitou a criação da Escola
de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP),
em 1954. É importante destacar que a FGV escolheu essa cidade,
considerada a capital econômica do país, "coração
e cérebro da iniciativa privada", com intuito de atender
às expectativas do empresariado. Para a implantação
da escola, a FGV buscou apoio do governo federal, do Estado de São
Paulo e da iniciativa privada.
Para
dar início às atividades nessa nova Instituição,
a FGV firmou um acordo com a USAID (Desenvolvimento Internacional
do Governo dos Estados Unidos). Nesse convênio, o governo
norte-americano se comprometia a manter, junto a esta escola, uma
missão universitária de especialistas em Administração
de Empresas, recrutados na Universidade Estadual de Michigan. Por
outro lado, a FGV enviaria docentes para estudos de pós-graduação
nos Estados Unidos, com intuito de preencher os quadros do corpo
docente da EAESP. Tal convênio revelava a influência
do ensino de Administração norte-americano na realidade
brasileira, evidenciada, sobretudo, por meio dos currículos
e bibliografias.
A
missão universitária norte-americana atuou na EAESP
até 1965, fornecendo uma forte estrutura acadêmica
à instituição que lhe permitiu ocupar uma posição
dominante entre os cursos de Administração do País
.
Com
a criação da EAESP, surgiu o primeiro currículo
especializado em Administração, que influenciou, de
alguma forma, o movimento posterior nas instituições
de ensino superior do País .
A
partir da década de sessenta, a FGV passou a criar cursos
de pós-graduação nas áreas de Economia,
Administração Pública e de Empresas. Em meados
dessa década, iniciou a oferta regular dos cursos de mestrado.
Com
a criação dos cursos de mestrado, a FGV passou a ser
o centro formador de professores para outras instituições
de ensino, no momento em que ocorreu uma enorme expansão
dos cursos de Administração. Como conseqüência
dessa expansão, na metade da década de 70, a entidade
passou a ministrar um programa de doutorado nessas áreas.
Outra
Instituição de muita relevância para o desenvolvimento
do ensino de Administração tem sido a Universidade
de São Paulo (USP), que surgiu da articulação
de políticos, intelectuais e jornalistas.
A
Universidade de São Paulo surgiu em 1934, por meio da aglutinação
de faculdades já existentes e da abertura de novos centros
de ensino. Em 1946, foi criada a Faculdade de Economia e Administração
(FEA), que tinha por objetivo formar funcionários para os
grandes estabelecimentos de Administração pública
e privada .
A
criação da FEA se deve principalmente ao grande surto
de industrialização, quando surgiram empresas movimentando
vultosos capitais que exigiram, para sua gestão, técnicas
altamente especializadas.
Assim
como a FGV, por meio da EBAP e da EAESP, também a Faculdade
de Economia e Administração foi criada com um objetivo
prático e bem definido: atender, por meio da preparação
de recursos humanos, às demandas oriundas do acelerado crescimento
econômico .
Foram
os interesses públicos e privados que influenciaram na criação
da FEA. Segundo Martins, o objetivo era de prestar colaboração
às empresas privadas e a todos os órgãos do
serviço público
Desde
o início, a instituição procurou criar relações
principalmente com a Administração Pública
local. Estabeleceu contato com a Federação das Indústrias,
com a Associação Comercial do Estado e com a iniciativa
privada. Tais relações permitiram que o quadro de
professores desenvolvesse, além de suas funções
didáticas, um trabalho de assessoria junto a organismos privados
e na administração estatal.
No
interior da FEA, foram criados institutos que desempenharam um papel
estratégico para sua articulação com o campo
do poder econômico, na medida em que passou a prestar serviços
a organismos públicos e privados.
É
importante mencionar o Instituto de Administração,
criado em 1946, que, juntamente com a FEA, foi, até 1966,
muito importante na orientação de projetos e pesquisas
para a administração pública e estatal.
A
FEA, nos seus primeiros 20 anos, possuía apenas os cursos
de Ciências Econômicas e Ciências Contábeis,
e não oferecia os Cursos de Administração.
Mesmo assim, ambos os cursos evidenciavam um conjunto de disciplinas
que tratava de questões administrativas. O Instituto de Administração
tinha por objetivo realizar pesquisas na área. Essa orientação
permitiu o surgimento da Revista de Administração,
por meio do Departamento de Serviço Público.
Somente
no início dos anos 60, a FEA sofreu algumas alterações
estruturais, dando origem ao Departamento de Administração,
composto por disciplinas integradas aos cursos de Ciências
Econômicas e Ciências Contábeis. Segundo Martins,
nessa época, surgiram os primeiros cursos de pós-graduação
da faculdade, inclusive em Administração, embora,
ainda não existisse o curso de graduação. Isto
só veio a ocorrer em 1963, quando a faculdade passou a oferecer
os cursos de Administração de Empresas e de Administração
Pública.
É
importante considerar que, enquanto a criação da EBAP
e EAESP correspondeu a um momento histórico, em que o segundo
Governo de Getúlio Vargas procurou conduzir uma política
econômica, baseada na criação de empresas estatais
e empresas privadas nacionais, retomando o tema do nacionalismo,
a criação do curso de Administração
da FEA coincidiu com um momento em que a grande empresa estrangeira
havia se consolidado no mercado interno nacional.
A
partir de 1972, o Instituto de Administração foi reestruturado,
passando a ligar-se ao Departamento de Administração
e não mais a um grupo de disciplinas. Seu principal objetivo
tem sido o de prestar serviços a entidades públicas
e privadas, realizando pesquisas e treinamento de pessoal. Segundo
Martins, os serviços prestados geraram um fundo de pesquisa,
transformando-o em um órgão captador de recursos no
interior da FEA.
Observa-se
também que a criação e a evolução
dos cursos de Administração na sociedade brasileira,
no seu primeiro momento, se deram no interior de Instituições
Universitárias, fazendo parte de um complexo de ensino e
pesquisa. Essas escolas transformaram-se em pólos de referência
para a organização e funcionamento desse campo.
No
final dos anos 60, a evolução dos Cursos de Administração
ocorreria, não mais vinculada a Instituições
Universitárias, mas às Faculdades Isoladas que proliferaram
no bojo do processo de expansão privatizada na sociedade
brasileira.
Essa
expansão também está relacionada às
transformações ocorridas no plano econômico.
A partir da década de 60, o estilo de desenvolvimento privilegiou
as grandes unidades produtivas na economia do país. Ocorreu
o crescimento acentuado das grandes empresas, principalmente estrangeiras
e estatais, permitindo a utilização crescente da técnica.
Isso implicou diretamente a necessidade de profissionais com treinamento
específico para executar diferentes funções
internas das organizações. Diante dessa situação,
as grandes empresas passaram a adotar a profissionalização
de seus quadros, tendo em vista o tamanho e complexidade das estruturas.
Isso veio constituir um espaço potencial para a utilização
dos Administradores que passaram pelo sistema escolar.
Com
as mudanças econômicas, um novo acontecimento acentuou
a tendência à profissionalização do Administrador:
a regulamentação dessa atividade, que ocorreu na metade
da década de 60, pela Lei nº 4.769, de 9 de setembro
de 1965. A presente Lei, no seu artigo 3º, afirma que o exercício
da profissão de Técnico em Administração
é privativo dos Bacharéis em Administração
Pública ou de Empresas, diplomados no Brasil, em cursos regulares
de ensino superior, oficial, oficializado ou reconhecido, cujo currículo
seja fixado pelo Conselho Federal de Educação, nos
termos da Lei nº 4.024, de 20 de dezembro de 1961, que fixa
as Diretrizes e Bases da Educação no Brasil. Isso
veio ampliar um vasto campo de trabalho para a profissão
de Administrador.
No
ano seguinte à regulamentação da profissão,
por meio do Parecer nº 307/66, aprovado em 8 de julho de 1966,
o Conselho Federal de Educação fixou o primeiro currículo
mínimo do curso de Administração. Dessa forma,
foram institucionalizadas, no Brasil, a profissão e a Formação
de Técnico em Administração .
As
diretrizes do parecer se inspiraram na análise das condições
reais da Administração no País e nos postulados
que emanavam da lei e da doutrina fixada na experiência nacional
e internacional.
Tal
currículo procurou agrupar matérias de cultura geral,
objetivando o conhecimento sistemático dos fatos e condições
institucionais em que se inseria o fenômeno administrativo;
matérias instrumentais, oferecendo os modelos e técnicas
de natureza conceitual ou operacional, e matérias de formação
profissional.
Com
a liberdade dada pelo currículo, as escolas poderiam ministrar
as matérias do currículo mínimo com diferentes
dosagens de tempo e de acento quanto aos objetivos, assim como organizar
cursos ou seminários de aplicação mais restrita
ou especializada.
Tem-se
de superar certa tendência atomística que decompõe
o currículo em todos os elementos que poderá abranger,
adicionados, depois, como matérias autônomas: é
a tendência prevalecente ao longo da tradição
educacional, a que se deve a excessiva densidade dos planos de estudo.
Dentro dessa orientação, mais ou menos mecânica,
torna-se impraticável a redução, salvo por
processo igualmente mecânico que elimina, mutilando.
De
acordo com o Parecer nº 307/66, o currículo mínimo
do curso de Administração, que habilita ao exercício
da profissão de Técnico de Administração,
seria constituído das seguintes matérias:
- Matemática
- Estatística
- Contabilidade
- Teoria Econômica
- Economia Brasileira
- Psicologia Aplicada
à Administração
- Sociologia Aplicada
à Administração
- Instituições
de Direito Público e Privado (incluindo Noções
de Ética Administrativa)
- Legislação
Social
- Legislação
Tributária
- Teoria Geral da
Administração
- Administração
Financeira e Orçamento
- Administração
de Pessoal
- Administração
de Material
Além
desse elenco de matérias, tornava-se obrigatório o
Direito Administrativo, ou Administração de Produção
e Administração de Vendas, segundo a opção
do aluno. Os alunos também tinham de realizar um estágio
supervisionado de seis meses para obter o diploma.
A
partir dessa regulamentação, procurou-se instituir
organismos que controlassem o exercício da profissão.
Foram criados, então, os Conselhos Regionais de Administração
(CRAs).
A
função de tais organismos era de fiscalizar o desempenho
da profissão e expedir as carteiras profissionais. Só
poderiam exercer a profissão aqueles que fossem registrados
nos CRAs. Esse organismo passaria a ter um forte controle sobre
as condições de acesso à profissão .
Isso nos mostra que
a regulamentação da profissão de Administrador,
ao institucionalizar que o seu exercício seria privativo
daqueles que possuíam título de bacharel em Administração,
contribuiria de forma acentuada para a expansão desses cursos.
Outro
fator que contribuiu significativamente nesse processo de profissionalização
foram as leis da Reforma do Ensino Superior. Essas leis estabeleceram
claramente níveis de ensino tipicamente voltados às
necessidades empresariais, assim como possibilitaram o surgimento
de Instituições privadas, que, juntamente com as Universidades,
pudessem corresponder à grande demanda de ensino superior
desde a década de 50 .
A
Lei nº 5.540, nos seus artigos 18 e 23, afirma que: "os
cursos profissionais poderão, segundo a área abrangida,
apresentar modalidades diferentes quanto ao número e a duração,
a fim de corresponder às profissões reguladas em Lei:
As Universidades e os estabelecimentos isolados poderão organizar
outros cursos para atender às exigências de sua programação
específica e fazer face à peculiaridade do mercado
de trabalho regional".
Tais
acontecimentos repercutiram significativamente, uma vez que, em
um intervalo de 30 anos, o ensino de Administração
alcançou uma dimensão significativa na sociedade brasileira,
considerando que contava com dois cursos apenas em 1954, o da EBAP
e o da EAESP, ambos mantidos pela FGV. Na Tabela 1.1, pode-se verificar
a evolução do número de cursos das década
de 60, 70, 80 e 90 .
TABELA 01 - Número
de cursos segundo as décadas de 60, 70, 80, 90 e 2000.
DÉCADAS
NÚMERO DE CURSOS
- Antes de 1960
2
- 1960 31
- 1970 247
- 1980 305
- 1990 823
- 2000 1.462
Fonte: MEC - Dados
compilados pelo Conselho Federal de Administração.
Essa
relação entre prática profissional e a obtenção
de título específico impulsionou aqueles que aspiravam
a ter acesso a funções econômico-administrativas,
em órgãos públicos ou privados, a ingressar
em centros de ensino que oferecessem tal habilitação.
Também aqueles que já desenvolviam tais atividades
no mercado profissional foram estimulados a buscar o título
universitário para obter promoções.
Um
dos aspectos que merece ser destacado na expansão dos cursos
de Administração é a considerável participação
da rede privada nesse processo, ocorrido a partir do final dos anos
70. No início da década de 80, o sistema particular
era responsável por aproximadamente 79% dos alunos, ficando
o sistema público com o restante. O mesmo ocorre nas demais
áreas do conhecimento, onde a distribuição
é de 61% para a rede privada.
Ao
contrário das primeiras escolas, que nasceram próximas
aos campos do poder econômico e político, as novas
escolas, de maneira geral, nasceram eqüidistantes das expectativas
e dos grupos que ocupam posições dominantes nesses
campos. Essas escolas surgiram a partir da iniciativa daqueles que
atuavam no setor educacional, aproveitando o momento em que o Estado
pós-64 abriu um grande espaço para a iniciativa privada,
visando a atender à crescente demanda de acesso ao ensino
de 3º grau.
A
abertura dos cursos apresentava-se vantajosa, uma vez que poderiam
ser estruturadas sem muitos dispêndios financeiros. Tais cursos
buscavam uma certa rentabilidade acadêmica, procurando adaptar
suas práticas acadêmicas aos grandes centros que desfrutam
de maior legitimidade.
Observa-se
uma relação assimétrica, em que as primeiras
escolas de Administração, como tendência, têm
produzido para o setor público e privado uma elite administrativa
vinculada aos pólos dominantes dos campos do poder político
e econômico. Por outro lado, as novas instituições
têm produzido os quadros médios para as burocracias
públicas e privadas que, em função de sua complexidade,
necessitam de pessoal para suas rotinas, isto é, um pessoal
treinado para questões econômico-administrativas .
Outro
fator, também fruto da expansão dos cursos de Administração
na sociedade brasileira, é a concentração desse
ensino em determinadas regiões. No início da década
de 80, as regiões Sudeste e Sul respondiam por 80.722 alunos
e 81% de todo o ensino de Administração do País.
Esses dados indicam uma forte prevalência das regiões
de maior concentração e diferenciação
produtiva, onde se localizam as maiores oportunidades em termos
de mercado de trabalho para essa profissão.
Isto
mostra que a preocupação não deve estar apenas
voltada à preparação de profissionais para
as empresas privadas. No momento em que o Brasil se encaminha para
uma sociedade democrática, parece oportuno defender a formação
de um profissional capaz de atuar em outras formas organizacionais,
tais como: associações de bairros, cooperativas, pequenas
empresas e outros campos novos à espera de formas organizacionais
inovadoras, além do seu tradicional campo nas empresas

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