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O Renascimento da Administração - Artigo

por Administrador do portal 14/01/2014 10h49

 

Em nenhuma outra época da humanidade houve um fluxo tão grande e tão intenso de produção artística e de surgimento de gênios quanto o período conhecido como Renascença, que teve na pequena Florença o seu epicentro.

O que explica o desencadeamento de um potencial criativo praticamente infinito que, mesmo séculos mais tarde, ainda não fomos capazes de reproduzir ou muito menos superar? Quais os métodos adotados pelos mestres renascentistas em seus processos criativos e no desenvolvimento de suas habilidades? E o melhor: o que isso tem a ver com Administração? Em 1997, David Banks, estatístico da Universidade Carnegie Mellon, escreveu um breve artigo intitulado The problem of excess genius (O problema do excesso de genialidade). Banks observou que os gênios não se distribuem uniformemente no tempo e no espaço.

A história da humanidade está marcada justamente pela concentração de gênios em determinados períodos e localidades especiais: Atenas, entre 440 e 380 a.C., Florença, de 1440 a 1490, e Londres, entre 1570 e 1640, sendo o período florentino o mais produtivo – e o mais intrigante. Daniel Coyle resgata essa questão no brilhante livro O Código do Talento, e elenca as razões normalmente utilizadas para explicar como uma cidade com menos de 50 mil habitantes (algo como Campos do Jordão dos dias de hoje) conseguiu, em apenas meio século, fazer surgir dezenas de gênios: prosperidade, paz, liberdade, mobilidade social, paradigma cultural.

Apesar de plausíveis, é difícil acreditar que apenas a convergência desses fatores justifique o sucesso renascentista. Inclusive, vários desses pontos são desmentidos pelos registros históricos, o que ainda nos deixa sem resposta. Escreve o autor: “A Florença quatrocentista não era excepcionalmente próspera, nem pacífica, tampouco oferecia mais liberdade que outros lugares”. Pronto para desvendar o mistério? O boom artístico florentino se explica por uma poderosa invenção social: as guildas. Talvez você não se recorde muito bem de suas aulas de história do colégio, por isso vou explicar. Guildas eram associações de artistas (tecelões, pintores, ourives, artesãos, entre outros), que se organizavam para regular a concorrência e controlar a qualidade de suas produções. Verdadeiras empresas, essas organizações contavam com uma administração, taxas e regras bem estabelecidas sobre quem poderia exercer determinado ofício.

Os cursos de Administração devem ser as guildas dos futuros administradores, um ambiente de treinamento profundo, onde não apenas a teoria faz parte da formação"

A razão de seu sucesso era um sistema de formação de aprendizes. Meninos por volta dos sete anos de idade passavam a morar com os seus mestres por períodos de cinco ou dez anos. Uma verdadeira estufa de treinamento profundo. Todos os gênios renascentistas tiveram seus mestres. Leonardo da Vinci foi discípulo de Andrea Verrocchio, Verrocchio estudou sob a supervisão de Donatello (não, não é a Tartaruga Ninja), Donatello sob a de Ghiberti, e assim por diante. Por milhares de horas, esses aprendizes aprendiam o ofício por completo, na prática, da mistura de tintas e preparo das telas à execução de verdadeiras obras-primas, um sistema calcado na produção sistemática de excelência.

Coyle compara essa experiência à de um estagiário de 12 anos de idade que passasse uma década sob a supervisão de Steven Spielberg – “o fato de esse estagiário um dia virar um grande diretor de cinema não seria nenhuma surpresa, mas algo quase inevitável”. Beleza, você pode computar o talento singular de um Da Vinci a alguma bênção divina – ou, como sugere um famoso programa do History Chanel, à influência de extraterrestres. O cara era realmente excepcional. Mas teria o jovem Leonardo despertado a sua genialidade caso não tivesse a oportunidade de ter sido aprendiz de Verrocchio, outro gênio (porém, não tão famoso)? E, se houvesse nascido em nosso tempo, teria o potencial único de Da Vinci sobrevivido ao nosso sistema educacional, à rotina estressante e banal imposta pelos pais de hoje, aos valores de nossa sociedade, às mensagens do Whatsapp e à frivolidade do Facebook? Tenho minhas dúvidas.

 

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