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CFA

Planejamento estratégico e sustentabilidade

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por imprensa 04/04/2016 16h04
Prever mudanças no cenário dos negócios, organizar para criar e entregar o produto ou serviço. São estratégias de sucesso.

Trabalho há cerca de vinte anos com planejamento. Auxiliei várias empresas em seus processos de estratégia e ajudei a formar uma geração de planejadores. Embora em anos recentes tenha exaltado a importância do tomador de decisões como elemento crucial na transformação das organizações e da sociedade, notadamente em meu penúltimo livro, devo admitir que passei mais tempo de minha vida reforçando os conceitos clássicos sobre a construção de planos estratégicos. Infelizmente, a situação que o Brasil atravessa nos faz ter de revisar esta noção.

A ideia básica, que você e eu estudamos e aplicamos em nossas empresas poderia ser resumida assim: baseando-se em dados e fatos concretos, deve-se antecipar em alguns anos o que o mercado deseja prever os movimentos da concorrência e as mudanças no ambiente de negócios, e preparar a organização para criar e entregar o produto ou serviço. Chega-se, então, a um "mapa" contendo o que fazer, assim como o pano de fundo financeiro que se espera realizar. Trata-se, portanto, da criação de um modelo analítico formal baseado em cálculos e predição, que resulta em um "projeto de futuro" para a organização.

O problema é que "nunca antes na história deste país" foi tão difícil prever qualquer coisa. Não que o exercício de cenários seja inválido, mas as possibilidades e a dinâmica de transformação são tão variadas, que dificultam muito a elaboração de planos estratégicos no formato tradicional. Além disto, a crise econômica tem trazido desafios aos administradores (vou destacar a redução de gastos) para os quais a única solução possível é inovar drasticamente em grandes processos, quando não no próprio modelo do negócio. Infelizmente, como diria Henry Mintzberg, o planejamento estratégico é muito bom para organizar categorias, não para reinventá-las.

A perda de performance dos negócios, de modo geral, tem multiplicado a quantidade de preocupações na alta gestão das empresas, tirando o seu foco da estratégia, trazendo-o para a gestão de curto prazo. A confusão política e econômica produz turbulência estressante no dia a dia de quem decide, pondo em risco sua capacidade de discernir, sintetizar o problema, propor um conceito de solução e oferecer liderança para que a transformação ocorra. Neste contexto, planejamento e sustentabilidade passam a significar a mesma coisa para muita gente: sobreviver à crise sem comprometer demasiadamente as chances de recuperação após a tempestade passar. Mas não precisa ser assim.

Estamos vivendo um momento em que é muito importante aproximar o pensamento da execução. E o elo para isto é o gestor, executivo ou empresário. A ele (ou ela) cabe investir mais tempo para descobrir a resposta à questão crucial: qual o problema da minha empresa? A resposta deve ser possível de ser escrita (ou desenhada) em uma folha. Caso contrário não será uma síntese, não podendo ser comunicada e compreendida adequadamente, não produzindo consciência por parte dos liderados. A seguir, a construção da solução. Esqueça modelos prontos, e também não se preocupe com os detalhes, que virão mais adiante. O mais importante é ter um conceito para oferecer à equipe como solução do problema. Assim, enquanto debate o problema e a solução oferecidos pelo CEO, ou pelo proprietário, a equipe promove importantes insights que vão qualificando estes modelos, tornando-os mais legítimos para o grupo e repletos de detalhes que garantirão sua perfeita execução.

Um aspecto positivo de tempos difíceis como o que estamos passando é que eles nos permitem aproximarmos mais da operação e das pessoas, vivendo mais o dia a dia do negócio e, inevitavelmente, aprofundando nosso conhecimento e as relações com colaboradores e com clientes. Por outro lado, períodos de "vacas gordas" podem nos levar a relaxar. Momentos como o que vivemos nos permitem exercer de fato o papel de liderança que se espera de um empreendedor ou de um executivo de ponta, capaz de conquistar seguidores por suas ideias, pela forma como enxerga e demonstra uma saída clara, mesmo em situações muitas vezes caóticas, e para tal instiga algum motivo para que as pessoas ajam na direção certa.

Fonte: Jornal do Comércio